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I am Assange

Muitos vão duvidar, assim como eu duvido agora de mim mesmo, mas vou mencionar Saramago laudatoriamente, utilizá-lo e, com isso, enviar meus leitores à leitura dele. O que, convenhamos, não é de todo mau.

O caso está em A Jangada de Pedra, que foi o primeiro livro dele que li, em um verão bem distante, quando ainda dividia apartamento com Dick Noir, e que li por recomendação dele. O mote do livro, sabemos, é que a península ibérica se descola do resto do continente – fica aí, uma massa de terra, o que se faz com ela, aterrorizando o Atlântico, solta. Há um belo momento, quando a ficha cai, os Europeus se apercebem do que está em jogo com a península à deriva e, como sempre, nas engajadas universidades parisienses começam a dizer Eu também sou Ibérico. O que, entendi, queria dizer Eu também sou Outro, ou Sem o Outro não sou eu – algo dessa ordem. É lindo, é uma apoteose, um florescimento. Se esgarça, obviamente, o livro tem outros destinos, o Autor deseja, nesse caso creio que desgraçadamente, muito mais. Mas é uma onda, é emocionante, e também diz algo, pois o incidente está repleto daquilo que faz com que ainda hoje falemos “Maio de 68” – há aí coisas ditas, coisas feitas, e fermento imaginário e conversacional fazendo o evento crescer e se sedimentar como um fato que sempre ultrapassa o slogan que, supostamente, o define.

Para comentar e situar o caso específico do Wikileaks e da prisão de Assange, não poderia fazer nada melhor que o Avelar já fez aqui – como sempre com a bala na agulha, ele organiza o incidente em uma narrativa, faz do bruhahá um fio na trama do presente, e com isso nos ajuda a produzir sentido e encontrar um lugar na narrativa também. Um lugar que pode ser esse, de dizer Eu sou Assange, Eu  também sou Assange. Isso, em meu caso, quer dizer que não tive a vida aventuresca e heróica que ele teve e tem, e que não estou na berlinda como ele está – mas que há algo de empatia entre o que eu julgo justo e bonito fazer e o que ele passa a ser quando, a respeito dele, podemos dizer coisas assim. E Herói é pra isso mesmo.

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  1. Kowalsky

    Se me permite, isso me traz uma lembrança mais boba, me faz lembrar de uma cena de Spartacus, o filme. Who’s Spartacus? O captor romano interroga. Aí o próprio Spartacus se adianta, oferecendo a cabeça para salvar a pele dos companheiros: I am Spartacus. Então os outros gladiadores começam: You’re the biggest liar i have ever seen… I am Spartacus. E assim por diante; ao fim todos eram Spartacus. Até mesmo pessoas do povo, em volta da praça, começaram a se declarar Spartacus. A punição e a aplicação de qualquer pena ficou impraticável e acho que é assim que o filme termina.

    • Hoje, no seu aniversário, venho lhe dizer que sempre lhe permito aparecer aqui, claro: o honrado sou eu. 🙂

      E a história do Spartacus tem tudo a ver sim. Se tivesse lembrado, teria comentado no post.

  2. diego

    Show de bola! não conhecia o avelar.
    e parabéns pra humanidade revolts com o capitalismo-tardio. Greves na Espanha, na França, na Irlanda e, o mais lindo de tudo, Hackers invadindo site do Mastercard: Não tem preço.

    • O Blog do Avelar é bom sim, Diego – eu já tinha comentado ele em outro tópico, aquele da Blogologia.

      E quem diria que esse caso do Wiki ia gerar o efeito dominó no Oriente Médio, hein? Até Kadafi voltou pro noticiário. Bom – acho, à distância no espaço e próximo no tempo dos acontecimentos. Vamos ver.

  3. “há algo de empatia entre o que eu julgo justo e bonito fazer e o que ele passa a ser quando, a respeito dele, podemos dizer coisas assim. E Herói é pra isso mesmo.” que bonito, sobretudo “quando, a respeito de XXX quem seja XXX, podemos dizer coisas assim”.

    • Denise, já tinha um tempão que eu não postava nada (a história do Free Assange já está antiga) e vc terminou me despertando de meu sono dogmático – obrigado. Vamos ver se eu consigo lançar mão de seu exemplo e postar pelo menos uma vez por semana. 🙂

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