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Derridabase 2.0

O meio de uma manhã de Maio de 2011: ele está preparando aulas.

Essa denominação vulgar obscurece um procedimento muito idiossincrático que é, algo paradoxalmente, um dos esteios de sua profissão – que é, por sua vez, uma profissão que é tomada como dado, como envolvendo um saber que todos tem, sendo algo que todos podem. Em um certo sentido isso está correto – mas é também parte do resumo grotesco de incompreensão geral que envolve esse que é o seu trabalho, no qual ele está envolvido nessa manhã.

A certa altura, ele hesita. Devo discutir Derrida aqui? O debate que pretende travar com os alunos hoje circunda as relações entre etnografia e estruturalismo, então talvez valha a pena recuperar algo de “A estrutura, o signo e o jogo”, de Derrida. Ele vai à estante, procura o livro, não acha, perturba sua mulher, encontra o livro, o abre, e começa. Mas, ao invés de continuar procedendo como procedia – lendo pela enésima vez esse texto, destacando trechos em uma ficha que depois vai organizar em um esquema em outra ficha, que depois vai reproduzir no quadro e que vai utilizar como recurso mnemônico e norteador da discussão – desliza e divaga para o seu primeiro encontro com esse texto, na época do mestrado, há mais de quinze anos.

O que era esse texto para ele, então? Um enigma, uma foice a recolher de um golpe só suas entranhas, sua suposta inteligência, sua capacidade de se defrontar com o desconhecido reduzida a uma cabeça de fósforo, tudo reduzido à sua devida insignificância hermenêutica.  A primeira vez que ouviu uma menção a esse texto ocorreu no meio de um discurso inflamado de uma professora, uma cientista política de quem não ouve falar há muito, muito tempo, mas que sabe que se aposentou cedo, nunca terminou o doutorado e mora, se ainda vive, no interior. Essa mulher tinha uma têmpera única, ele nunca viu de novo aquele tipo específico de condução da energia em uma discussão: qualquer conversa podia se transformar em um debate, e um debate era sempre um engalfinhar-se, mas era como se houvesse uma alegria de fundo, um automatismo como o do riso quando vem, inevitável, irresistível, no fim de uma piada. Uma vez ela disse Vendi todos os meus livros e deixei só uns de Foucault; outra vez, perguntou Ora, você não está levando isso a sério, não é, rapaz? E se você não está levando a sério então porque é que tá levando, hein? E ele, obviamente, nada soube responder.

Essa foi a mulher que uma vez lhe disse Ficam aí discutindo como se Derrida nunca tivesse escrito A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências sociais, ficam aí tergiversando como se isso fosse nada. Essa declaração, em sua força enigmática, oracular, o inquietou enormemente – e lá foi ele, contrito e cdf, procurar ler o que deveria já ter lido, sempre atrasado e aflito, sempre atrás de si mesmo, demasiado lento pra ser eficaz ou achar que está em sintonia certa com seu tempo, suas necessidades, tudo que é imperativo saber para ser. Essa primeira leitura, realizada na biblioteca da universidade, incompreensível, não foi menos oracular que o proferimento que o havia levado à leitura – e foi ela que retornou hoje, enquanto ele preparava sua aula, pensando no que debater com seus alunos, quinze anos depois de todos esses incidentes, sua memória cheia de lembranças e nomes desses personagens perdidos com os quais conviveu e que foram remexendo nele como se fosse de barro, como se ser jovem fosse o mesmo que não ter nenhum formato, nenhum livro de Foucault a preservar, a menor consciência do que disse Derrida, e na verdade nada a dizer.

O que era isso, considerando o ensino?, ele pensa, O que ela estava, de fato, ensinando? Pensa isso e, rapidamente, descarta, isso não é interessante, não é sempre que se ensina, muito menos que se aprende – essas coisas na verdade são difíceis, remotas, e adventícias, provável efeito colateral de uma outra coisa, um enigma mais vasto, talvez mais interessante, mas a hora avança, a manhã se consome, o tempo passa e a aula chegou – e nela, evidentemente, nada disso foi dito.

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  1. precisei ler e reler algumas vezes para que fizesse sentido pra mim – bebi um bocado. pensei em te perguntar o que significa, ou como você vê, hoje, essa incompreensão juvenil, daquele que lê à procura de algo e se encontra num labirinto, durante esse processo de aprendizado, perdido num texto, etc, etc, etc [ “O que era esse texto para ele, então? Um enigma, uma foice a recolher de um golpe só suas entranhas, sua suposta inteligência, sua capacidade de se defrontar com o desconhecido reduzida a uma cabeça de fósforo, tudo reduzido à sua devida insignificância hermenêutica.” ]; mas aí tentei de novo, coloquei os óculos. na segunda leitura, com mais cuidado, vi/li melhor. mas ainda havia ainda uma pequena incompreensão. na terceira leitura eu tive a resposta (acho): [“isso não é interessante, não é sempre que se ensina, muito menos que se aprende!”]

    • Olha que bacana, Gabas: seu comentário inclui o problema, o processo de resolução do problema, e a desistência da ideia de resolução do problema em benefício de um bem maior.

      Show de bola. 🙂

  2. denise bottmann

    o que é do homem o lobo não come, como dizem – e aquela sua professora de quinze anos atrás devia saber disso 😉

  3. sempre atrasado e aflito, sempre atrás de si mesmo, demasiado lento pra ser eficaz ou achar que está em sintonia certa com seu tempo, suas necessidades, tudo que é imperativo saber para ser. [2]

    Dizem que antigamente era melhor: faziam o mestrado em 4 anos e o doutorado em 8…

    • É, mais é mais que isso: tem gente que parece tão apropriada e na justa medida do zeitgeist. Eu, pelo visto, vou morrer tentando pegar o bonde do zeitgeist. Ou desistir de uma vez. 🙂

  4. Lá no canto direito do seu blog está escrito “Auto-ficção”. É no mesmo sentido de algo ser Auto Móvel? E se é assim, Auto-Ficção, o que você tem a ver com isso? É mais uma de suas estripulias de sair de si e, assim, quiçá sair daqui?

    Sei lá. Perguntar não ofende, né?

  5. “sempre atrasado e aflito, sempre atrás de si mesmo, demasiado lento pra ser eficaz ou achar que está em sintonia certa com seu tempo, suas necessidades, tudo que é imperativo saber para ser.”

    Continuando. Ser lento para correr atrás de si mesmo, não é coisa demasiado Peter Pan? C´est ça?

    Acho que está lhe faltando uma epifania.

    • Refra, com relação a essa questão anterior eu não tenho muito o que dizer não: o post fala de uma ignorância de fato, e de um desdesejo de tudo saber.

      E quem me dera poder escolher quando se me dão as epifanias 🙂

  6. como disse o leonardo, o cara tá pegando fogo. eu vim aqui citar um trecho, mas o kelvin já tinha citado ^^

    • Tô é cansadão, Vini: essa boemia não é para os fracos não 🙂

      Sempre fico esperando a hora que vc vai reeditar seu comentário de “Melhor post até agora” – quem escreve nunca sabe dessa parte.

  7. Ara

    Já comentei e descomentei. Enfim criei coragem depois de dias com esta página aberta. Você caprichou na reelaboração das memórias (no plural mesmo). E que aflição que a ignorância gera em mim quando nem sei o que quero e talvez nem precise saber. Mas ainda assim, “lá [fui eu], […], procurar ler o que deveria já ter lido, sempre atrasad[a] e aflit[a], sempre atrás de [mim] mesm[a], demasiado lent[a] pra ser eficaz ou achar que [estou] em sintonia certa com [meu] tempo, [minhas] necessidades, tudo que é imperativo saber para ser.”
    Perturbe-me outras vezes, eu rogo.

  8. Jamille

    É profis, como me vi, num espelho inverso de Narciso, nas angústias desse ‘mestrando’. Como o próprio Derrida disse,é preciso às vezes lembrar para esquecer! Esquecer, porque nem tudo é pra ser explicado e entendido!

  9. osair

    caro antoniomarcospereira em que livro encontro “circonfissão”? sabe de algum download? grato

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