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Encontrei o Kelvin no Café Nice

Senhoras e senhores, ofereço para o seu desfrute mais um post formidável do Kelvin: eu não ia conseguir fazer melhor nem se tentasse muito.

Fiquei com saudade da época em que a gente se encontrava pra tomar café, eu a fumar um cigarro (muita saudade de fumar um cigarro), ali no Café Nice: nossas conversas eram ótimas, ele sempre estava de bom humor e, apesar do tom às vezes muito amargo que eu queria imprimir ao que falava, eu também, embora a gente soubesse que ia sair dali e encarar a faina inacreditável de lecionar cinco aulas de língua seguidas, eu de Inglês, ele de Alemão.  Vida dura, mas que tinha suas alegrias, como essa aqui, hoje, também tem seus ossos e sua saúde. Pois é.

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A álgebra de Henry James e uma prece

Minha irmã, leitora fidelissima destas notícias, alerta-me, em um gentil telefonema Rapaz, você é equivocado mesmo, viu? O negócio da álgebra você botou no título e esqueceu. Eu esperava mais de você.

Ela, como de praxe, tinha razão: esqueci de mencionar a que vinha a menção à álgebra, e isso foi uma falha – não foi uma alusão tangencial de caso pensado, como a que fiz a Herzog, e que o Diego Giesel sacou na hora. E vai ficar pra outra hora contar a história toda, mas por enquanto basta mostrar a quadrinha que encontrei um dia num banheiro do terceiro andar da Faculdade de Letras da UFMG.

E sobre a prece: não é puxasaquismo não, que isso não nos convém – mas vejam que coisa linda a Another prayer, mais uma vez do blog do cara de Londres do qual eu fiquei fã: impressionante como há tanta coisa comprimida aí, em uma voz entre o patético e o confessional. Vejam como ele passeio por mil alusões sobre um certo modo de vida, e como isso é realizado com graça, invenção e provocação. Ou seja: é literatura. E para a literatura eu digo Amém. Amém, Irmãos e Irmãs, amém. Amém.

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Enxaqueca, livros, William James, algebra

1. Enxaqueca. O repertório de imagens em torno do problema é vasto, já foi bem recenseado pelo Oliver Sacks em seu Enxaqueca, e certamente pode prescindir de minha tosca contribuição – mas a de hoje me fez pensar que a caixa craniana estava gradualmente se enchendo de pedras, depois areia, depois água – na sequencia daquela história infame que circulou abundantemente por aí, e que recebemos em spam, em mensagens de natal, ano novo, o diabo. Eis o horror: além do sofrimento característico de um processo agressivo que é na melhor das hipóteses amansado pelo medicamento,  ainda fui brindado com a lembrança dessa fábula.

2. Silver lining. Para continuar no terreno das analogias férteis, a dupla obscuridade referida acima foi aliviada por algumas páginas, na verdade dois capítulos, do excelente The Master, que já comentei brevemente aqui: cheio de sentenças lapidares, e atravessado por um processo de emulação de um ritmo jamesiano que, embora não seja, obviamente, a mesma coisa, é também excelente, justamente porque não deseja ser a mesma coisa que James. Embora eu não consiga explicitar totalmente minhas razões, acho que há um aprendizado interessante aí – talvez justamente porque não consigo explicitar totalmente minhas razões.

3. Livros. Como na finada – e em geral chata, mas esse aspecto era legal  – coluna do Nick Hornby pro The Believeralguns livros recém-chegados:

3.1. Hamilton, How to do biography: nunca subestime o poder de um manual de instruções americano – são produzidos por pessoas que acreditam nisso para pessoas que acreditam também, e esse pessoal vem fazendo esse negócio há mais de cinquenta anos! Minha esperança, que me torna irmão em  intenção de todos os que buscam livros de instrução para resolver questões da vida, é ver se o livro do Hamilton me ajuda a proceder com menos sofrimento – e, como sempre é meu desejo, mais organização e método – na redação da biografia do Saer.

3.2 Fitzpatrick, The anxiety of obsolescence – The american novel in the age of television: o título me fez pensar em uma história social da minha geração, aquela que foi formada pela TV e que descobriu internet já adulta, mas não é exatamente isso. Fitzpatrick é bem representativa de um tipo de acadêmico norte-americano antenado e multivalente, proficiente no uso de mídias sociais e disponível para investir na ampliação do circuito de conversações ordinário do professorado: o livro que ela está escrevendo agora vai bem em cima dos meus interesses de pesquisa, e foi por aí, quando estava buscando coisas sobre publicação acadêmica online, que me deparei com o trabalho dela. Calhou que ela tinha escrito esse livro que chegou hoje, que também me interessa. Ela foi colega do DFW em Pomona, e escreveu um dos textos do In memoriam DFW. Por fim, já que estamos no assunto,

3.3 Lipsky, Although of course you end up becoming yourself, parte de minha tentativa de me aproximar de DFW usando uma via que facilita minha vida. Foi culpa, inicialmente, de um comentário de Matt Bucher e, depois, de uma conversa comprida com T

Com sorte e vida longa e próspera, tudo isso terá seu dia de comentário aqui. E, para terminar com uma nota positiva um dia lastimável e sombrio, The Master himself: Henry James aos 16 anos, antes de se tornar “Henry James”, como um lembrete de que mesmo os Mestres começaram pequenos.

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Não é brincadeira

ficar pensando em como corrigir essa bobagem do espaçamento de linhas do blog e se debater com isso e não conseguir resolver – o Gabriel, como sempre muito gentil, até tentou me ajudar, mas nada. Daí, hoje, depois da natação, depois de escrever uma boa página, uma página inteira, sem dilema, sem problema, talvez até sem erro (mas isso só se sabe depois: o que há agora é a sensação de correção e de propriedade, que é muito distinta da própria coisa) – depois dessa glória insuspeita da manhã me permiti mais um capítulo do excelente The Master, de Colm Tóibin – coisa linda – mas – horror – no meio da leitura me percebi pensando Porra, como vou resolver aquele negócio do espaçamento etc. O que é, com toda a tragédia e a comédia que isso implica, uma inegável manifestação disso que chamamos de identidade. Que monotonia.

Mas vamos, agora, à vida social, às lides acadêmicas, ao ganha-pão.Vamos, pois há trabalho a fazer.

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Primeiro de Maio

1. Fato: Quase um mês sem um post. Mas sem desculpas: há mil e uma maneiras de fazer anotações, e esta é apenas uma delas.

1.2. Razão: Boa parte do tempo assim-chamado livre foi dispendido frequentando o excelente blog que, aliás, estava lá, na última nota que escrevi aqui. Por conta da folia em torno do texto da Flora Süssekind, terminei lendo blog pra chuchu esses dias. Mas, claro, houve mais, muito mais: aulas e correção de trabalhos, como sempre; um evento protagonizado por um grupo com o qual trabalho, que aconteceu com sucesso, embora eu estivesse um pouco abatido durante toda a semana, com um mal-estar indefinido, uma espécie de gripe encruada que foi forte o suficiente para me impedir de ir à natação (!); resenhas para O Globo: já saiu a do poeira: demônios e maldições, do Nelson de Oliveira e por sair estão as do Doutor Pasavento, do Vila-Matas e a do Verão, do Coetzee.

1.2.1 Fato peculiar: O AX escreveu resenhas em paralelo às minhas para os livros do Vila-Matas e do Coetzee – por email, comentamos a coincidência, e fiquei pensando se isso dizia algo sobre as características desse trabalho no Brasil hoje. Mas logo me censurei por estar querendo extrair sentido disso também. Por que isso deveria ter algo a dizer?, pensei. Tem coisas que só acontecem, não tem de ser instâncias de outra coisa – embora, claro, sempre possam ser outra coisa também, como aliás a literatura é pródiga em mostrar.

2. Leituras: Além dos livros mencionados e mais um outro, que comentarei aqui depois (é este aqui), li várias coisas em torno de biografia para o ensaio que estou preparando para o JALLA; o mais digno de nota foi um artigo de Hibbard, “Biographer and subject: a tale of two narratives”: excelente, casos bem costurados, pouca conclusão e até, diria um leitor com má vontade, pouco “aprofundamento” – mas bom justamente por isso, porque abdica de dizer tudo, porque esboça o problema, esclarece as vias de ataque selecionadas pelo autor, e sai de cena – fica o leitor, com seus problemas. Bom, isso é bom.

2.1 “Bom”: Um post futuro reclama ser escrito sobre a criteriologia ordinária que me leva a dizer que, por exemplo, o artigo de Hibbard é “bom”. Ano passado escrevi sobre isso, depois apresentei outro trabalho numa mesa sobre isso – é o bendito tema do valor literário, mais uma vez aparecendo para me assombrar. Outro dia estava relendo esse texto do Jaime Ginzburg e pensando no quanto me custaria produzir uma réplica mais consequente do que as anotações que já fiz a respeito do artigo dele aqui e ali. Há algo no tema que me estimula, em parte acidente de formação (minha relação com BHS, por exemplo, que não é nada trivial no que diz respeito a esse assunto), em parte por saber que o debate é sempre quente nesse setor, e potencialmente infinito – e isso me deixa com vontade de dizer algo a respeito, de participar da conversação. Bom, isso é bom – pra mim.

3. Romance de formação: No telefone, minha irmã comentou Como é que você bota no seu blog um post de Romance de Formação com três discos e nem menciona o LC? Eu poderia ter me desculpado dizendo a verdade – que o referido post foi pensado como o primeiro de uma série, todos com aquela mesma característica, discos e uma historinha pessoal. Mas, ao invés disso, senti vergonha, como se eu tivesse feito, inadvertidamente, uma coisa má para um amigo – uma coisa que em mim teria sido só um certo descaso, mas no amigo teria causado tristeza e sofrimento. Então vim remediar o mal e fazer aparecer aqui o Durutti Column, LC, comprado na Mesbla, em 1986.