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O Matuto

1. A mulher está só, década de 30, no sertão do Mato Grosso: uma choupana, na verdade, onde devia esperar por umas horas, mas a noite chegou, e é aí que ela vai ficar. Sente, lá pelas tantas, a cólica, e sabe que o menino vai chegar, o que ocorre de fato por aquelas vias de aflição costumeiras da natureza mas que muitas vezes terminam em sucesso. Muito bem: essa termina em sucesso, o menino nasceu, chora, tudo bem.

Tudo bem? Obviamente isso é apenas a abertura. De onde vem a mulher? Quem é o pai da criança? Como chegaram ali? Quem esperavam? Continuarão esperando?  Nesse momento alguém se aproxima: quem é, o que está fazendo com as mãos, o que é aquele negócio que esse homem tem na mão? São cerca de onze horas da manhã: na Avenida Rio Branco os engravatados cumprem suas rotas e rotinas diárias, na Praça da Sé meu avô compra um bilhete de loteria, um homem rico acaba de nascer.

1.1 O texto acima foi produzido a partir do tema “O Matuto”, que me foi proposto por T: é uma homenagem ao circuito magnífico de NEODADA que é a peripécia do livro de Zíbia Gasparetto tal como descrita neste inacreditável verbete aqui.

1.2 Há tantos embaraços e desvios de rota nesse textinho da wikipédia: há uma estrutura geral de clichê, mas há também uma série de indicadores imprecisos, enigmáticos, que terminam por trair e subverter expectativas.

1.2.1 Isso, esse jogo com subversão de expectativas genéricas, é abundante em muita ficção contemporânea: Aira, imediatamente. É, todavia, igualmente abundante a falência desse projeto, que se torna por essa via um arremedo de ficção no qual a incompetência do Autor é travestida de transgressão de gênero. Trata-se de algo bastante rudimentar: há uma incompetência, o Autor não sabe escrever aquilo, propõe-se a executar algo e falha. Um violinista erra: notamos na hora, comentamos; um jogador de futebol fura: nunca passa sem menção. Mas, em literatura, isso produz todo tipo de complicações, passando desde culpa cristã até acusações gratuitas de má fé e criação de desafetos.

1.2.2 Essa situação tem algo de demoníaco para o Crítico, para o comentador de literatura. Caso insista em cobrar perícia técnica do Autor, há várias defesas imediatas à disposição: “Não entendeu o projeto”, “Quer fazer telepatia”, “Quer entender o livro melhor que o Autor” etc. O que resta é close reading – que está fora de moda, mas que é uma disciplina da atenção, e que tem um ethos.

2. Às vezes, quando tenho de comentar um livro, me pergunto, como Amalfitano, meu personagem favorito em 2666, se perguntava diante de seus alunos: Quem se engana? A certa altura da semana passada, afligido por uma leitura tão ruim que só foi concluída por imperativos morais ligados a meu entendimento do conceito de “trabalho”, lembrei de uma das imagens favoritas do Kelvin, o livro de geometria que Amalfitano pendura na corda para que ele aprenda algo com a intempérie. Enquanto alguém está comendo ou abrindo uma janela ou somente andando ao léu, aqui estou eu às voltas com esse livro ruim, pensei. A vida é curta. Quem se engana?

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    • “Por que o Sr. Euclides, um médico famoso e bem de vida, com mansão, dinheiro, luxo, bela e linda esposa, e um filho, por que abandonou tudo e foi morar no mato?”

      • Pois é: não é lapidar essa sentença? Será o início de outro post com certeza, quiçá até de uma saga aqui. No final descobriremos que o Sr Euclides era tio-avô de Daniel Pellizzari (hats off to The Gent).

    • Pixel-man, vou tentar, tô tentando. E obrigado pelo empurrãozinho (a pergunta que vc fez no formspring foi tão boa que tô pensando em reproduzir aqui).

    • Eu ia gostar muito de resenhar um livro desses. Vou batalhar lá no Globo pra ver se me dão um livro espírita.

      E dureza, broder, é Marimbondos de Fogo: me derrotou, e acho que sem revanche. A Zíbia há de ser fichinha perto do Sarney.

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