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Sabatina

Uma manhã sem natação = melancolia. Mais: obrigações sem conta no fim de semana, das mais prosaicas e sociais (o aniversário de uma amiga, ir ao supermercado) às mais portentosas e amedrontadoras (um artigo para começar e terminar, computar as notas dos alunos para devolver os trabalhos, ler todos os trabalhos que ainda não li). Tinha prometido a uma aluna – entenda-se: uma boa aluna, do tipo que merece esse tipo de compromisso – que comentaria um artigo que ela vai apresentar na segunda, e é essa a razão que, junto com tudo que mencionei antes, me traz aqui, para esse PC, para esse post.

Va bene, tudo ok, penso. E realmente acredito nisso: tudo ok. Mas, por favor, não venham me dizer que professor universitário não trabalha. Você, aluno, que pensa que a vida do professor é uma maré mansa sem fim: pense melhor, e pense bem se você quer isso, se deseja algo assim para si – pois eu tenho visto desejos de fama, fortuna, importância, prestígio, carro importado, e sempre muitos desejos sem fim de auto-engrandecimento, mas ainda não vi um de vocês lendo Don DeLillo pelos corredores, ou escrevendo um blog que não envergonhe a mim, que não o escrevi, que sou apenas seu leitor. Vejo, alunos, seus mil desejos escancarados, pendurados no pescoço pelos corredores, e peço a vocês apenas que trabalhem comigo e com os outros professores a partir de desejos minimamente compatíveis com esse negócio que vocês, em tese, vão fazer na Universidade. Por favor, ofereçam a este, e aos outros professores, a benesse de se defrontar casualmente com a excelência discreta e intempestiva; dêem – como um dom maussiano, sabendo que vai e volta – a seus professores a grande dádiva que será lidar com vocês sem ter de amaciar seus egos cotidianamente, ou pisar em ovos todo o tempo para não ferir suas sumamente situadas, apesar de quase universais, vaidades, ou simplesmente para nos permitir um tempo de trabalho sem que tenhamos de pensar quanto de nosso exercício é consumido no cobrar.

E você, camarada Autor: por favor, pare de pensar nos críticos de literatura como seus antagonistas, ou como a escória da humanidade – estamos no mesmo negócio, camaradas, e se há integridade moral vivendo ao lado de filhosdaputa incompetentes do meu lado da cerca, certamente há o mesmo em sua região também.

E você, camarada Crítico de Literatura, pare de usar hipérbole como se fosse juízo e evidência de vida inteligente – via de regra não é. Inteligência, às vezes, aparece como uma espécie de subproduto adventício, como o suor que às vezes encontramos do lado da geladeira, dessa atividade quieta, meio melancólica mas eventualmente produtora de muita felicidade, a leitura.

E agora vou ler, claro.

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I Comentário até agora

  1. Porque é uma tradução, em várias direções, de pensamentos que passam por mim, ainda que em versão menos sofisticada ( a minha versão, digo!).

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