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Saída à Francesa

Você vem trabalhando há quase um ano em uma biografia: um texto que deve narrar, em alguma medida, episódios da vida de um autor argentino que viveu a maior parte de sua vida na França e morreu recentemente. Suas razões para o empenho são, em certa medida, ponderáveis e solidárias, mas tem também sua cota de obscuridade. Você crê, por exemplo, que parte de seu interesse em produzir uma biografia e em se dedicar com tanto afinco a esse trabalho em particular confirma um traço seu que, na falta de maior possibilidade de precisão semântica vou chamar no momento de subalternidade eletiva: você não deseja ocupar o centro do palco nem em seu próprio livro, quer viver como uma nota marginal a uma reputação já construída, que é a do Autor, e a sua própria reputação seria manobrada obliquamente, adjacente à daquele autor que você admira, e valorizada pela eventual astúcia de uma invisibilidade, em uma espécie de eterna saída à francesa.

Considerando uma insistência do Autor em uma conhecida antinomia de Flaubert – que disse, famosamente, tanto Madame Bovary sou eu quanto Há uma Madame Bovary em cada cidade francesa – você começou a ler biografias de Flaubert e, com isso, lhe ocorreu que não poderia ser de todo ruim ler enfim o Flaubert inteiro, em ordem cronológica, e acabar com isso de uma vez. Ler como se estivesse lendo tudo pela primeira vez (como se isso fosse possível): ler como se estivesse escrevendo uma biografia de Flaubert, ao invés de seu Autor de eleição, numa projeção da qual você espera também retirar alguma coisa, algum insight, alguma sugestão de procedimento ou uma faixa maior de segurança e graça. Você vai ler cada livro de Flaubert, e também os diários de viagem e as cartas; vai ler a biografia de Brown e a de Steegmuller e terminará o esquema lendo mais uma vez o livro que tanto lhe divertiu, o blasfemo e despreocupado Flaubert’s Parrot, de Barnes.

Você está assim, ligeiramente despreocupado, domingo à noite, agora há pouco, vivendo essas suas ficções: que você é um biógrafo, que ler Flaubert lhe faz bem, que você terá tempo. Repleto de boas intenções com seu programa especial, você se vê ao longo da leitura lembrando de outras frases, outras coisas lidas ficam interferindo e chamando sua atenção. É um momento de pequeno horror, você sabe que as frases não são suas, mas você não sabe de quem são, e afinal você também duvida, pode ser que sejam suas mesmo, um artifício de combinatória qualquer que você ignora e, de repente, elas saltam aos olhos porque fazem sentido, porque lhe dizem que tudo que você pensa é usado e de segunda mão, tudo que você vive é mais ou menos caótico, mais ou menos obscuro – e, no entanto, digamos, tudo bem, lá vai você escrevendo a vida de um Autor que você admira e, afinal de contas, de onde vem a admiração senão de um momento de clareza fugaz mas ainda vívido na memória no qual, ao ler, você percebe uma zona de obscuridade em si mesmo, descobre que sabia algo que efetivamente não sabe, mas não importa, pois naquele momento você não se envergonha, você não sabe e nisso, sim, você se dilui, igual a todos e capaz de se esquecer de si mesmo por esse momento que seja, pelo menos.

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  1. Lendo seu post, aqui deu vontade de te sacanear com uma passagem do “El entenado”, meio que pra te confundir às pampas. Mas deixei pra lá, até porque tenho outras caraminholas para esclarecer. Mas deu vontade de bulir com sua forma de “manquer toi-même” – que na tradução ruim, porque por falso cognato, te faz claudicar na identidade.

    Sigo na observância.

    • Refra, sacanagem é chegar prum amigo e dizer “deu vontade de te sacanear, mas não”. 🙂

      Venha, conte sua história (conte em um post no seu blog, e respondo em outro aqui, que tal?) e me sacaneie: se eu não entender, paciência. 🙂

  2. Acabei de conhecer teu blog (indicação do Refrator), muito bom, seguirei acompanhando…
    (e tb me diverti muito com o livro de Barnes)

    • Rafael, só vi agora seu comentário – bacana, obrigado, obrigado. E sem puxa-saquismo, saiba que curtia seu finado blog (por que parou?), e curti tb o livro que vc editou com a Ariadne (seu texto ali ficou bem bom).

      Faça outro blog, rapaz, vamos revitalizar essa arte decadente! 🙂

      • cómo finado blog? o blog está vivo!! laorejadeholyfield.wordpress.com, acho que mudei alguma configuração inicial, mas ele tá ai, tenta conferir e me avisa…

  3. Pingback: História abreviada dos livros que publiquei « ensaio

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