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3.1

1.

Tentando concluir um ensaio – vejam bem: um ensaio – me vi diante de um problema. Manter uma alusão no início significava ter de retomá-la ao final e, com isso, comprometer o que já parecia uma boa conclusão: sem ápice nem melodrama, mas uma efetiva conclusão, e não um simples abandono do texto. Por outro lado, retirar a alusão tornava meu texto mais ordinário do que estou preparado para aceitar – o delírio de grandeza não é exatamente a minha praia, mas esse negócio é meu trabalho, e respeito o meu trabalho, respeito trabalho. O que fazer?

Lembrei então de um trecho de Out stealing horses do qual gostei muito. Nele, Trond, o personagem que narra a história – quase a única voz com a qual travamos contato no livro, já que tudo é contado por ele e, embora o livro não faça uso de qualquer traquinagem metaficcional, se você trabalha com esse negócio você tem de pelo menos considerar a implicação dessa escolha da primeira pessoa para uma narração: é arbitrária, mas isso não é, nem nunca foi, sinônimo de “é feita à toa” (embora às vezes seja, mas isso são outros quinhentos). Então lembrei de um trecho e, como estava em casa, fui pegar o livro, localizei fácil, estava assinalado, com rabiscos à margem e tudo o mais: é o momento em que Trond imagina para si mesmo um desenlace, que o lembra das histórias de Dickens que ele aprecia, e ele descarta esse desejo como uma coisa vã, pois “quando você lê Dickens está lendo uma longa balada de um mundo perdido, no qual tudo tem de se ajustar no final como uma equação, no qual o equilíbrio do que foi perturbado deve ser restaurado pra que os deuses possam sorrir de novo”.

Minha tradução é tosca, e já é feita de segunda mão – o original é em norueguês. É um trecho que julgo lapidar: da escolha de certos vocábulos – “balada”, “equilíbrio”, “equação” – até sua resolução em uma imagem tão datada e demodê que só pode nos lembrar de algo tão “perdido” quanto o final de um romance de Dickens ou de um filme de Frank Capra. Não as coincidências, nem o heroísmo necessariamente recompensado, nem a fibra moral justamente reconhecida – mas o bendito final feliz.

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Sobrinho

Outro dia me disseram que eu puxo o saco do Kelvin aqui. Isso não é verdade, embora seja verdade que o fato de ele ser meu único sobrinho angula de maneira toda particular nossa relação, e longe de mim querer supor uma  tabula rasa – não é o caso.

Comento sobre o Kelvin aqui com frequência em certa medida porque acho o tema da amizade um pouco maltratado e subutilizado, tenho curiosidade a respeito, acho que há coisas sobre a amizade a examinar, a descobrir, a dizer. Sei que Derrida andou falando disso no fim da vida e, embora não saiba o que Derrida disse sobre esse assunto, devo dizer que o tema apareceu para  mim por outras razões. O que é um amigo? Quem é o amigo? Como se faz o amigo – como, em um dado momento, uma pessoa deixa de ser um conhecido e passa a ser um amigo? Conseguimos recuperar esse momento em particular? É a amizade um modus operandi em extinção, matéria de arquivo e memória – uma conduta datada, como usar chapéu? Em Os meninos da rua Paulo quem é amigo de Nemeczek – e de quem ele é amigo? A moeda da amizade é a verdade, algum tipo de verdade? Ou a amizade é melhor descrita como uma ficção, um tipo de ficção fora da escrita que ainda não nos ocupamos de inserir na taxonomia dos gêneros?

Venho pensando nessas questões de pouco Ibope, leio um poema que o Kelvin escreveu hoje mesmo e penso É meu amigo. É isso:


Explicação

A epifania, hoje, é
um pouco de ruído branco
misturado com um ensaio
de Gilda, Mello e Franco

Explora a vida e a matéria
como na primeira peça
de Beckett:
Eleotéria

Que quer dizer liberdade,
em grego,
sem pretender,
com isso,
desgastar a
boutade

Do verbo bouter, empurrar.
No seu Lattes não tem francês:
É por isso que eu preciso
explicar

Mas não leve a mal:
no meu não tem italiano,
ainda que eu seja fã
do velho Mastroiano

Não o ator, não:
me refiro ao livreiro,
dono daquele sebo na Liberdade.
Um pardieiro.

Lugar de gente encurvada,
cinza e manchada,
mas todos conscientes
de que ler
é maçada.


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Analogia

O assunto tem uma conexão imediata com Narrathon, título de um ensaio escrito por Saer em 1972, 1973 e que aprecio a ponto de tê-lo lido mais de dez vezes, escrito um texto a respeito, e estar envolvido com a escrita de outro texto na mesma praia. Nesse ensaio, Saer dramatiza sua experiência inicial com o significante novela: diz que foi apresentado ao termo quando criança, quando suas irmãs se diziam, ou se perguntavam, ou se organizavam em torno de la novela, referindo-se à rádio novela, que nunca perdiam, que ouviam apaixonadas, e torciam, e celebravam, e choravam. E daí ele prossegue para falar de sua relação com la novela, a narração, a ficção. O resultado é magistral.

Há uma contrapartida pessoal e, obviamente, mais modesta: num momento que deve ter sido bem próximo ao momento em que Saer escrevia seu texto, lembro de meu pai, diante de algum filme (ou seriado?) na televisão dizendo Isso é ficção, meu filho, isso é um filme de ficção.  Mais adiante haverá um entendimento da elipse – de alguma maneira, vou aprender que nesse momento, o que meu pai queria dizer com ficção era ficção científica. E muitos anos depois haverá um entendimento mais elástico do termo – treinado na academia e em uma área relacionada a isso, vou passar a tratar de ficção como um conceito, ficção científica como um gênero, etc.

O que esse incidente diz sobre minha relação com o problema mais amplo e com esse gênero em particular? Ou, colocando a mesma questão de outra maneira, que espécie de fantasia infantil operava em mim quando, assistindo Distrito 9 há alguns dias, subitamente lembrei disso? Ao sair da sessão pensei nas razões para a miséria desse gênero, para sua condenação a um lugar de literatura menor, sub-literatura, coisa de adolescente, coisa datada. Pensei que, se penso diferente, se penso outras coisas sobre ficção e ficção científica, não seria por uma particularidade construída nesse primeiro encontro, nesse primeiro colapso entre uma coisa e outra?

Analog

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Sonho

Hoje de manhã, tomando um café com o Kelvin, falei pra ele que já fazia um tempo que não sonhava mas que ontem – fui dormir cansado pra chuchu depois de corrigir mil trabalhos e ainda fiz questão de ler uma historinha do Carver antes de capitular -, ainda naquela zona entre vigília e sono mas já com a luz apagada e tudo, ocorreu-me súbito uma imagem que julguei belíssima, e logo depois acordei com aquele sobressalto leve, levantei e fui anotar.

Eu estava na Tijuca, e andava devagarzinho, procurando lugar pra estacionar. Como estava perto do Maracanã, pensei Ah, vou dar uma passadinha lá, quem sabe eu encontro com a Lu? Estacionei, sossego total, comprei meu ingresso e entrei. Casa lotada, eu com um chopinho na mão fico procurando a Lu pelas arquibancadas e de repente a multidão faz uma ola e grita Coetzee… Coetzee… Coetzee. Olho pro alto e, saindo do interior de um helicóptero parado no ar, descendo por uma corda, está John Coetzee, ovacionado, sorridente, feliz. Chega no centro do gramado leve como uma pluma, se inclina grato e satisfeito várias vezes, e dá uma volta olímpica tranquila, acenando pra todos os lados da multidão antes de descer pro vestiário.

Que tal?, perguntei pro Kelvin.

Ele disse Vamos melhorar um pouquinho esse seu sonho. O papel picado que enche o ar do Maracanã é feito dos livros de Santiago Nazarian, Marcelino Freire e Luiz Antonio de Assis Brasil. Em uma plataforma retirada, perto da entrada dos vestiários, Zibia Gasparetto psicografa mini-contos de Franz Kafka, que serão lidos e comentados por Coetzee no gran finale. Pronto. Que tal agora?

Melhor, eu disse. Bom pra caralho agora.


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Summertime

Há aquela história famosa envolvendo Gershwin: ele visita Webern, declara-se um admirador, Webern providencia uma execução de algo exclusivamente em deferência ao visitante. Tudo é, obviamente, austríaco, austero. Depois, como bom anfitrião, Webern convida Gershwin a tocar algo; a proposta é recebida com acanhamento e alguma hesitação, e a esse titubeio Webern responde Ora, Senhor Gershwin, música é música.

Hoje recebi a notícia de que um amigo querido vai embora.  Eu, que já fui esse amigo que vai embora tantas vezes, lembrei não sei porque dessa história de Gershwin, e pensei em como desejei aprender a tocar piano melhor para, como num filme de Woody Allen, começar a tocar standards discretos e conhecidos de todos nas reuniões com a família e os amigos: os novos e os velhos, os idos, os que foram e os que vieram, os godos, os visigodos e os ostrogodos, todos todos todos, porque música é música.

Gershwins & Fred