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1.2

Há um tempo ando impressionado com um trecho de uma entrevista com o Sebald. É uma das últimas entrevistas dele e, justo no final, ele alude a um exemplo que aparece em outras entrevistas: é um experimento envolvendo ratos, cilindros que vão se enchendo de água, indução de crença, grupo controle, parada cardíaca, afogamento, etc. Essa alusão e mais outras salpicadas nos textos dele – coisas sobre os animais de Kafka, e a famosa cena do Nocturama, por exemplo – me levaram a fazer umas notas, e talvez em breve eu consiga fazer um texto sobre o tema.

Malgrado essas notas, ainda tenho o problema de entender qual vai ser afinal o tema: A metafísica do olhar animal em Sebald? Uma economia do contato com a alteridade pura: Os animais de Sebald? Poética do experimento, melancolia e resíduos identitários? Estranhamento e experimento: A alteridade residual em Sebald? Todos esses proto-títulos me parecem, ao mesmo tempo, dar conta do problema, investir na bola da vez, e ser ridículos. Deve haver algum mérito nessa combinação insólita de qualidades per se mas, deixando isso de lado, o fato é que desde que tropecei nela durante a fatura de uma resenha de Austerlitz, há coisa de uns três anos, a idéia continua reaparecendo para mim. Estou dirigindo e lembro disso. Durante a aula, os alunos fazendo uma atividade, penso nisso. No intervalo da banca, enquanto os outros professores saem para fumar, fico lembrando como era ser fumante e, sozinho na sala, olhando pro ar condicionado, penso nisso. Hoje pensei ainda que, resolvido o problema do título, ainda teria que resolver a questão da tonalidade particular desse texto, com esse tema: para onde vou mandar isso? Como acomodar a fantasia da publicação a um fato, que há de ser meio chato, da escrita?  E ainda vou ter que saber como concluir o negócio.

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1.1

Morte súbita em ratos de laboratório: Um modelo animal de depressão?

R. D. Porsolt, Ph.D (Unité de Neuropharmacologie, Centre de Recherche Delalande, Rueil-Malmaison, France)

RESUMO

Ratos colocados em uma situação de elevado stress associado à natação frequentemente morrem em questão de minutos. Sugere-se que a morte se deve a desespero experimentalmente induzido. O presente artigo descreve procedimentos que permitem a indução rápida e confiável da morte súbita em ratos de laboratório e indica que quatro drogas psicoativas testadas (imipramina, d-anfetamina, clorodiazepoxida e clorpromazina) foram incapazes de afetar o tempo de sobrevivência. Conclui-se que o procedimento não é útil para a detecção de antidepressivos potenciais ou outros tipos de agentes psicotrópicos.

Palavras-chave

morte súbita; modelo animal de depressão; drogas psicoativas

Recebido: 16 de janeiro 1980; Aceito: 23 de abril 1980

Drug Development Research, Vol 1, n. 3, p.229-233.

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Às vezes,

de manhã, fazendo o café ou, como hoje, indo pro trabalho, penso em César Aira. Imagino se ele já está escrevendo àquela hora, se ele está em casa ou comendo uma medialuna em um café onde ele costuma ir em Flores. Imagino se o que ele está escrevendo naquele momento será lido por mim daqui a alguns anos e se vou gostar do livro. Será, por exemplo, que ele já se deu conta do enorme potencial narrativo das máscaras balinesas, e de toda a tradição literária, dramática e musical balinesa, com seus mil artifícios e soluções de circularidade?  O poder da coincidência, a coincidência como Força Motriz do Universo, o Acaso como algo respeitável o suficiente para conduzir nossas vidas, a Sorte ou o Azar como fenômenos idênticos. Um homem se distrai dirigindo, outro se distrai atravessando a rua; uma mulher pensa em um homem distante, um homem próximo a observa; um menino entra num prédio abandonado com dois amigos, é uma gráfica, está cheio de máquinas velhas e tem muita poeira; uma coisa furtiva que você só vê pelo canto do olho se move pra trás de uma máquina. O café chega quente, está bom: é bom tomar café na padaria quieta de manhã.

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Encontrei com meu pai

na última sexta; hoje, domingo, além de ser Dia dos Pais era o aniversário dele e, como eu sabia que ia ter de trabalhar no domingo, almoçamos na sexta, eu, minha irmã e ele no restaurante do nigeriano.

Meu pai está com 66 anos, e está forte, parece saudável. Há uma coisa melancólica às vezes no tom e no conteúdo da fala, mas nunca mais ouvi sarcasmo partindo dele.

Passamos alguns anos sem nos ver, quando eu estava viajando. Uma vez ele foi me visitar; era um período complicado pra mim. Pensando agora, posso dizer que quase todo meu período fora daqui parecia complicado, salvo quando eu me esquecia que estava vivendo um período complicado.

Um dia, um domingo também, fim de julho, um dia magnífico, a gente pegou o teleférico e ele não parou de tirar retratos. Era um turista japonês – havia vários perto de nós e, no que diz respeito ao turismo, ser japonês não é indicativo de que você nasceu no Japão: é um estilo.

Uma hora tirei essa foto: meu pai aos 62 anos.

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Notas sobre Mark Hollis

1. Como todos nos anos 80, ouvi Talk Talk, aquela faixa.

2. Em 1992 eu trabalhava esporadicamente numa loja de discos. Apareceu um dia Spirit of Eden: lembro de ouvir o vinil de manhã, assim que abri a loja, enquanto abria a correspondência. Eu sabia o que esperar, já tinha lido a respeito.

3. Dizem que um dia ele solicitou um naipe de metais pra uma faixa e ficou horas no estúdio, um dia inteiro, com esses músicos: no final, no disco, o que aparece é apenas o som de um trumpetista tentando ajustar o lábio, tentando acertar a embocadura antes de tocar. Não sei de onde tirei essa história, que acho linda, mas algo que vem junto com ela me leva a pensar também em uma estação de metrô, em colocar as mãos no bolso da calça porque está frio.

4. Volta e meia lembro dele: penso no que ele estará fazendo a essa hora, por exemplo, ouvindo o quê, ouvindo a quem.

markhollis