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Fábula zen adaptada

Estava conversando com Maurício hoje sobre isso – na verdade, a conversa era sobre a gota de Conrad, mas de uma coisa a outra terminamos nisso de histórias zen e lembrei de uma coisa que li na biografia de Stape, The several lives of Joseph Conrad.

Conrad estava no Congo e, como sabemos, quase nada dava certo. O barco, arruinado, era remendado no que chamavam caridosamente de porto; entediado e febril, ele não sabe o que fazer, espera uma resolução, que resolvam por ele, até que de fato o acaso resolve, pelo menos em parte, sua indecisão, confinando-o, doente, à cama.

É fim de tarde, ou parece isso pela luz. Em seu torpor debaixo do mosquiteiro, ouviu dois homens murmurando no alpendre, e esforçou a vista para enxergar melhor. Um deles tentava acender um cachimbo e, depois de ouvir uma frase, deixou o cachimbo cair – tremeu? Terá tremido? O outro insistia – falava em voz baixa, mas com veemência – e tocou no ombro do que queria fumar, ergueu um dedo. Não, não!, dizia o primeiro, enquanto se abaixava para recolher o cachimbo e um pouco do fumo. Não, não!, insistia, respondendo ao murmúrio do insistente.

Conrad viu e ouviu isso, ou acha que viu e ouviu – depois, não vai conseguir lembrar quem falou o que, ou mesmo se alguém falou alguma coisa. O que tinha sido testemunhado juntou-se ao meio mal lembrado e resultou que foi com isso que Conrad sonhou logo depois:

Um homem caminha, muscular mas ofegante, andrajoso; quer sair da selva, se rasga nos cipós, o mato é hostil. Vê um esmaecimento e isso lhe parece bom: se dirige pra lá e, quando se aproxima, sente um puxão na perna. Olha – é uma jibóia, imensa, que começa a se enroscar. Decide ignorá-la e insiste avante, se embaraça nos passos agora mais pesados: está negociando a caminhada com um membro sinuoso adicional e com vontade própria, mas adia este problema, e prossegue. Já é fato: ouve o resfolegar da máquina do trem, a vibração da máquina, está perto de um trilho de trem. Mais uns passos, mais dificuldade, menos fôlego, cai, tropeça em si mesmo, a jibóia avança entre suas pernas mas, enfim, alcança os trilhos e, nesse exato momento, seu olhar divisa um lampejo do outro lado das folhas: é uma manta, parece um planta que se move e recua um pouco e, antes que possa sequer discriminar o que vê, muito menos refletir ou ponderar sobre um curso de ação possível, tendo já arrastado a jibóia por um bom quinhão, sente o vapor da proximidade do tigre. Cai nos trilhos: uma parafernália indecifrável. O trem se aproxima, vira a curva. Ei-lo agora:

fabulazen

Conrad acorda nesse momento, está suado. Que alívio!, pensa, Que sorte! Anos depois, quando lembra dessa história – incomodado com a gota, entediado e adoentado, mas agora bem fornido e aconchegado em seu inverno britânico – pensa também que não sabe quem teve sorte. Ele ou o homem do sonho? Quem teve sorte?

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