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Barco, Bowles

Noite passada, já deitado, já recolhido, ele se lembrou de um trecho de um conto de Bowles: um pássaro persegue um barco. Estamos longe da costa, muito longe: é extraordinário que esse pássaro esteja aqui e por isso a coberta está cheia de homens, marujos, prestando atenção, surpresos. O pássaro está exausto – não aguenta mais, e se esforça para alcançar o barco, e alcança. Mas, assim que se aproxima, se aproxima também dos homens na coberta, e hesita em pousar, recua, teme, e o barco avança, e o pássaro fica para trás. O pássaro está exausto – não aguenta mais, e se esforça para alcançar o barco, e alcança – vai por aí. Então, um garoto desce, entra no barco – e volta com um gato na mão.

Muito bem: essa história foi lida há exatos vinte anos. Nessa época, ele costumava passar a tarde lendo na biblioteca do curso de Inglês; foi lá que ele descobriu Bowles, lá que leu “A distant episode”, “A delicate prey”, e foi fisgado: nunca abandonou Bowles desde então, nem vice-versa. Ele gostaria muito de passar por aquele corredor e olhar pela porta de vidro hoje para aquele rapaz, 18 anos, lendo Paul Bowles. Mas isso não vai acontecer, e o mais perto que ele vai chegar disso é: aqui está esse homem, 38 anos, na hora de dormir, lembrando de um lance de uma história lida há vinte anos.

Com isso, claro, ele se levanta – vai às estantes, procura um livro de Bowles, e começa a folhear. Não: pega outro. Lá se vai meia hora, mais um pouco, uma hora foi fácil. Acha a história enfim, lê, vê que lembrou corretamente da cena, mas esqueceu de todo o resto – todo o resto da história. Ora, isso é lembrar?, pensa. Se o que eu lembrei tem mais esquecimento do que lembrança, do que é mesmo que eu lembrei? E com isso, com essa variação de um tema já explorado tantas vezes por ele, decide dormir e, já deitado, já recolhido, lembra de um lance de uma história que seu pai lhe contou.

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  1. Li Bowles há uns 15 anos, na mesma época em que assisti a “O céu que nos protege”, do Bertolucci.

    Fiquei impressionadíssima com o filme: a trilha de Riuchi Sakamoto, aquela luz do deserto, Malkovich, a submissão daquela mulher depois da perda…

    Mas o que mais me marcou foi a VOZ de Bowles, como o narrador, os trechos do livro falados por ele: literatura ou cinema? Quase pirei, tinha algo lá muito importante pra mim. Daí, decidi que tinha de ler tudo dele.

    Mas muitas decisões não se cumprem, a vida toma outros caminhos: só li o romance que deu origem ao filme – e não me perdoo até hoje por isso.

    Talvez agora, depois de ler seu texto, que fez com que muitas lembranças voltassem tb pra mim, eu resolva me redimir.

    • Sabe que o Bowles detestou o filme? Eu nem vejo razão pra isso – acho honesta a adaptação: não há invenção, e a pungência de algo no texto evapora – mas não é uma traição. Os contos são soberbos, Myriam.

      Vi no saudoso Cine Art, em Salvador, que hoje abriga uma filial da Igreja Renascer. Lembro do filme, e lembro que estava sozinho.

    • Camarada, até vc? Outro dia um aluno me falou “Professor, li seu blog, mas achei muito cabeça, muito profundo” – e dele espero algo assim. Mas de vc, leitor de Proust e Bowles, meu amigo há 15 anos ou mais – de vc não. 🙂

      O fato é que é isso o que havia no Ozu, o que há aqui, o que haverá sempre que eu escrever: se em meus artigos acadêmicos uma marca é uma argumentação conversacional (que aprendi, ou tento aprender ainda, com Rorty, Stanley Fish, Jonathan Culler – vc sabe os autores que eu admiro), aqui, nessa sub-ficções, vai ser isso sim.

      • Marcus

        Mas as cifras estão nas etiquetas, uma nova arte. Já vislumbro: “Da Poética das Etiquetas(tags)”

  2. Pingback: Taprobana, Bowles « ensaio

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