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Olavo de Carvalho, Caralho

A conexão aventura e leitura nada tem de necessariamente generalizável: pode ser ausente e inócua para muitos. Mas, para mim, está sempre em alguma medida na pauta. O regime hermenêutico que aplico em geral tende a passar por uma memória anguladora da leitura tout court, e isso, que foi construído quando era criança, significava ler Julio Verne, Emilio Salgari, Malba Tahan. Embora funcione a posteriori de um jeito que é próprio de um certo profissionalismo e do que chamamos de aprendizado, há uma força na cena primária, e a avaliação do que aconteceu entre o leitor e o livro, ao passar por essa peneira da “aventura”, termina sempre virando uma resposta que dou à pergunta Saí do lugar? Há um momento em que Perec fala da atitude do garoto que, com o livro à sua frente, parece em prontidão para o mergulho no livro: essa atitude, essa prontidão para o acontecimento, e a compatível disponibilidade para se deslocar – é disso que essa pergunta fala.

Por isso hoje, conversando com o Tiago sobre o Kelvin – que anda interessado em umas coisas demoníacas – disse Pois é, outro dia a gente tava até conversando sobre The Secret Sharer, T. Acho que ele tá numas de explorar esses temas, Outro, Alteridade, e foi até que chegou naquele lance ali do post. Ele mesmo me falou mais cedo Ah, esse post hoje eu escrevi sem entender, Tio.

“Escrevi sem entender”: achei bom isso, e fiquei um tempo pensando no que isso quer dizer – e vejam vocês que achei bom primeiro, e só depois fiquei ruminando pra fazer a derivação interpretativa que me permitiria, entre outras coisas, mencionar o post do Kelvin aqui e quem sabe até comentar sobre esse problema – a saber, como um escritor pode escrever sem entender, em certa medida, o que escreve – com meus alunos amanhã. Poderia falar também sobre a questão, que tanto tem me interessado, da construção das identidades de Autor e Crítico como negociações com o Duplo, com esse Outro representado na literatura tantas vezes como anátema, ou como nêmesis. E Tiago aproveitou a deixa e disse Ah, falando em nêmesis, olha aqui esse negócio e na hora me enviou (estávamos no gtalk) isso:  

Contar a história é o primeiro nível de elaboração da experiência. O romancista não escreve para explicar nada, mas para registrar um conjunto de experiências reais ou imaginárias cujo nexo último lhe escapa, cujo sentido ele só apreende como forma estética, não como conceito explicativo. Daí o sentimento de descoberta, e ao mesmo tempo de perplexidade, que nos assalta ao lermos um bom romance. Ele nos mostra algo de muito importante, mas que não sabemos precisamente o que seja. Por isso é que ninguém pode dizer qual “o” sentido de um romance. Ele tem necessariamente muitos, e até contraditórios. Um romance é um conjunto articulado de símbolos, e um símbolo, como ensinava Susanne K. Langer, é “uma matriz de intelecções” – não a expressão alegórica de intelecções prévias. Um romance deve dar o que pensar, não um pensamento pronto. Por isso é que homens de idéias, pensadores, ideólogos, formadores de opinião, fracassam com tanta freqüência ao escrever romances: eles falam daquilo que já entenderam, não nos dão uma experiência viva carregada de mistério, de perguntas sem resposta.

Li, e prontamente disse E o que é que tem de nêmesis aí? Eu concordo com isso. Posso caçar confusão, claro – Langer? Uma distribuição infeliz de cópulas e modais – a literatura é, a literatura deve… fala sério, né? Um tom metafísico de fundo, essas coisas – mas tem uma evocação do caralho da descoberta, da aventura, do risco, isso é bacana, em linhas gerais acho que é isso mesmo. Tem um problema epistemológico que raramente é colocado aí que acho legal também: se você retira a parte desse texto que é celebração da Metafísica da Presença, ainda tem uma coisa, e isso me parece mais significativo, que tem a ver com descoberta sem método, com saber produzido a partir de não-saber em literatura, e você sabe que eu gosto dessas coisas. Não vi nada de nêmesis. Mané.

E ele respondeu É Olavo de Carvalho, Toni.

E é isso: você nunca pode saber de onde vai aparecer o cúmplice secreto, aquele que parece com você, aquele por quem você vai se arriscar, sem saber ao certo a razão do risco, duvidando toda hora do valor do risco – mas prosseguindo mesmo assim.

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  1. diego

    Isto me lembrou um tópico antigo em que você diz que um link,”filosofia”, que certo cara possui em seu site, diz muito sobre a incompetência dele: o link o direciona a página de Olavo de Carvalho.
    O pixel-man têm o Olavo Carvalho adicionado. Não sei se é fake, mas é bem feito.
    Me lembrei que estou lendo DeLillo e que não consiguo dizer nada sobre o livro. Só sei dizer que o irmão do nick conversou o professor de xadrez, e que, porra!, o climão foda do DeLillo ninguém faz.

    • Pois é, Diego, vc vê como me custou isso.

      Mas, claro, não é caso de provocar conversão. É o caso de reconhecer uma semelhança de família – tipo uma vez que li que o Golbery gostava de Janacek.

      E, qto ao DeLillo, aquele livro é uma Catedral de Chartres do séc XX. Vc tem razão: “o climão foda do DeLillo ninguém faz.” 🙂

  2. Guaracy Araujo

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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