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Três notas

1. Señor Daniel Pellizzari retorna à vida online, sabe-se lá por quanto tempo – é boa notícia.

1.1. Referido senhor, no twitter, indica um blog do qual nunca tinha ouvido falar.

1.1.1. Referido blog, de um acadêmico, parece com o que gostaria que este blog aqui fosse caso desse certo – significando portanto que há uma certa idéia de correção que aplico aqui, significando que este blog tem não apenas um ethos, mas também um telos.

1.1.1.1. Há mais que isso, claro: neste post, por exemplo, me sinto muito próximo do autor: apesar de todas as distâncias (pra começo de conversa, o cara ensina em Londres), seus problemas são os meus também – embora não sejam exatamente iguais, guardam uma inegável semelhança de família com coisas que me afligem e, ao tomar conhecimento dessa semelhança, me vejo devolvido a C. S. Lewis dizendo We read to know we are not alone.  É certo que lemos por mil e uma razões que não essa, mas também é certo que há uma dinâmica de identificação, uma produção de empatia que, embora às vezes de foco errático, faz da leitura isso que me traz até aqui para comentar o blog que o Pellizzari recomendou e daí derivar para mencionar C. S. Lewis. É essa mesma dinâmica que me levava, já faz um tempão, a custear os intervalos de minhas aulas de inglês com a leitura do finado blog do Pellizzari no wunderblogs. Os demais autores desse coletivo me pareciam abominações, e me impressionava ver como se jactavam com facilidade, como se compraziam de si. O que pode levar um cara a achar que é bom ser um reaça colocando pó-de-arroz nas próprias tetas em um arremedo de vir a público?, aquela versão mais naïf se perguntava. No meio dessas coisas, e no meio das hostilidades com as quais eu me deparava quase que cotidianamente, ler o blog do Pellizzari era um bálsamo e um refrigério, meu encontro com um artifício aparentemente feliz de autocriação, o lugar onde aprendi a dar o devido valor ao Fail better.

2. Li no Estadão, numas notinhas que a Raquel Cozer faz no rodapé, que o AX está deixando sua condição de mais ou menos autopublicado e mais ou menos independente para assinar contrato com a Rocco. O parabenizei, claro: é um indicador mais ou menos óbvio de reconhecimento e progresso, imagino que ele esteja feliz e celebrando. E me pergunto: o que será essa experiência? A Punk goes Pro? O que isso representa na construção da autonomia financeira, e essa autonomia o que representa na fertilização de outros trabalhos do autor, e ambas as coisas o que representam no incremento da possibilidade de divulgação do trabalho literário, em auxílio para que esse Autor tenha acesso a mais e melhores leitores?

2.1. Essas questões que me ocorreram com relação ao caso do Xerxenesky – a quem poderia perguntar essas coisas, a quem provavelmente vou perguntar essas coisas – tem a ver com um tema que me interessa e com um texto que estou fazendo (molto lento, lentissimo) sobre Como vivem os Autores.

2.1.1. Como vivem os Autores? De onde tiram os recursos para viver sua vida de Autores, com estilo de Autores, amizades de Autores, consumo de Autores? Não estou interessado nos murmúrios privados da Guilda – aos quais provavelmente não teria acesso – mas sim nos elementos que talvez pudessem ajudar a consolidar uma compreensão dessa profissão no Brasil hoje. Ou então ver se falar em “profissão” é insultar a matéria para seus praticantes – ver se é o caso de recuperar o vocabulário da “vocação”, do “chamamento”, com suas conhecidas implicações de destino, inevitabilidade, abnegação.

2.1.1.1. Tenho pensado nessas coisas e me interessado em fazer esse texto porque com uma frequência cada vez maior ouço colegas falando sobre um curso de “escrita criativa”, a ser inaugurado na universidade em que trabalho. E me pergunto.

3. A resenha mais infeliz que leio em muito tempo é essa. Não seria o caso de examinar aqui com minúcia a natureza das muitas infelicidades desse texto.  Mas talvez seja o caso de pensar sobre o bombástico parágrafo final, e sobre o que esse parágrafo, enquanto instância exemplar, pode nos dizer sobre como um Autor brasileiro contemporâneo comenta o trabalho de outro Autor brasileiro contemporâneo. Pode nos dizer algo? Há algo mais para se dizer sobre isso?

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Ganhando meu pão – 2

Há alguns dias estava numa defesa. Era uma primeira vez – nunca tinha participado de uma qualificação e, depois, da defesa. Isso foi bom, ver que algo se deslocou, que houve aprendizado. Tudo isso, claro, é uma suposição: ele supõe que algo desse aprendizado se deva à maneira como ele rabiscou um texto, e a uma conversa que teve com a moça que escreveu o texto no dia do exame e depois, em um ou outro encontro. Acredita nessas coisas, o que nesse caso quer dizer que acredita que o que faz tem, ali, valor e, no meio da liturgia toda, enquanto espera sua vez, lembra do dia em que ele estava ali, no lugar daquela moça, respondendo aos examinadores. Foi uma hora de inquietude, de excesso de presença, de desejo de durabilidade – e já se passaram quase cinco anos, cinco anos.

Finda a cerimônia, no estacionamento, entra no carro se sentindo vazio, ordeiro, leve – feliz. Todos estavam felizes, aprovados com distinção. O engarrafamento é uma abominação, mas tudo bem. Tudo bem.

Dois dias depois, passa o dia inteiro com os colegas em um auditório: discussões, debates, grupos de trabalho, lideranças, estilos de protagonismo, disciplinas obrigatórias, a vocação histórica deste curso. Um aluno acumula uma rudeza nunca vista por ele, uma brutalidade: embora trabalhem juntos, nunca ouviu um bom dia do garoto, e se pergunta porque, há um enigma na proporção e na integridade da rudeza. Outro aluno murmura perto dele Pra quê outra literatura portuguesa? O que é que tem literatura portuguesa? Só tem Saramago e acabou. Há muito esforço e empenho, mas também há confusão, dispersão, maledicência; uma colega, a certa altura, diz A abnegação é um gesto político, eu me sacrifico. Ouve muitas pessoas, ouve à exaustão: é um curso breve de colonialismo, e pensa se, aos setenta, setenta e tantos anos vai se lembrar de um dia como esses, e se arrepender de sua puta paciência.

No fim do dia, extenuado, gasto, com uma sensação de demasia. Foi um potlatch. Esqueceu alguma coisa. A chave do carro? De casa? Algum livro? Nada. Que açoite, pensa. Que açoite da porra.

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Don Jorgito, Roberto Bolaño & Cia

Lembro de uma vez conversar com um amigo classicista que já era professor  na época em que eu era ainda um pseudocandidato ao posto; é um amigo querido com quem há muitos anos não converso, ele foi morar em Estraburgo, eu fui pros Estados Unidos, eu me casei e me separei, ele também – enfim, a vida deu uma daquelas torcidas que terminam convidando o afastamento a não ser que a gente resista à manifestação da lei da entropia nas relações humanas.

Um dia ele me disse como gostava desse trabalho, como era bom lidar com gente jovem, e como era boa a mudança dos semestres, como era bom ver as pessoas aparecendo na graduação, demonstrando interesse por alguma coisa e avançando, e aparecendo no mestrado, e caminhando na vida, e construindo alguma coisa nesse negócio que a gente chama de vida acadêmica.

Ele, claro, dourou a pílula, mas era uma percepção genuína. Lembrei dele hoje: estava exausto, e eram apenas dez e meia da manhã. Você vê um professor universitário em início de carreira e não faz idéia da carga de trabalho envolvida no negócio. Há, claro, pares lenientes, atire a primeira pedra quem não os tem, que fazem da estabilidade e dos acolchoados ligados ao espírito da guilda a infâmia do ofício. Mas há  muito mais que isso – ou você achava que se resumia a isso, e que estava coberto de razão quando demonizava a academia inteira? – e, no meio das mil coisas que fazem esse ganha pão, há muito que nutre o interesse, multiplica o empenho, mantém a atenção presente e estimula o desejo de elevar e honrar o ofício.

Assim, hoje, quando no meio de meus afazeres lá com o Túlio, o Juan bateu na porta e nos interrompeu para me dar um pacote de Jorgito, lamentei não ter tempo de dar atenção a ele, lamentei quanto tempo faz que não conversamos.  Mas não lamentei fazer as coisas que fiz pra que um dia eu tivesse sido professor do Juan e, por acaso, no intervalo de uma das aulas, na época em que eu ainda fumava, tivéssemos fumado juntos no corredor, e falado de Aira e de Adán Buenosayres, que dali a uns anos ele me daria de presente naquela edição linda da Archivos, e aquela vez em que falamos de outras coisas da vida e eu disse pra ele que precisava parar de fumar, e nos perguntamos se César Aira fumava, Saer com certeza fumava e não era pouco, e você não acha que Saer se refletia mesmo era em Tomatis, tipo fazia daquele personagem em particular seu alter ego? Não?  E, com essas coisas todas na cabeça, terminei desistindo do post que planejei fazer hoje, no qual falaria do chute no saco que são as resenhas de Bolaño nas quais ele enche a bola de todo mundo, mas especialmente a dos amigos dele, que grande aborrecimento ver aquela ladainha de loas, aquele desfile de magníficos, ninguém que jamais tenha levado porrada, e falaria também de um texto sobre o valor do não na crítica que li hoje ligando isso à prática de Bolaño como comentador de literatura, e de alguma maneira ia enfiar também aquele incidente grotesco de quando Bolaño já autor celebrado foi ao Chile e depois saiu escrevendo textos nos quais jogava todo mundo que encontrou na fogueira, uma vingança verbal tardia que termina sendo uma espécie de homenagem aos escrotos, e talvez falasse sobre aquele texto que planejo há tanto tempo, sobre a articulação entre escrotos e fudidos na poética de Bolaño e, claro, em algum momento comentaria também sobre o bruto labor que às vezes é produzir um comentário sobre um livro para, no final, pensar em Bolaño passeando na praia, um pouco cansado, está meio abatido, cumprimenta uma senhora sua vizinha, dia de muito trabalho no livro, saiu do escritório e foi dar um passeio na praia, a marina cheia de barcos, e ele vê os barcos soçobrando um pouquinho e se pergunta se isso está certo, se você julga que isso está certo, se você acha que a vida é assim mesmo do jeito que você pensa que é.

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O Matuto

1. A mulher está só, década de 30, no sertão do Mato Grosso: uma choupana, na verdade, onde devia esperar por umas horas, mas a noite chegou, e é aí que ela vai ficar. Sente, lá pelas tantas, a cólica, e sabe que o menino vai chegar, o que ocorre de fato por aquelas vias de aflição costumeiras da natureza mas que muitas vezes terminam em sucesso. Muito bem: essa termina em sucesso, o menino nasceu, chora, tudo bem.

Tudo bem? Obviamente isso é apenas a abertura. De onde vem a mulher? Quem é o pai da criança? Como chegaram ali? Quem esperavam? Continuarão esperando?  Nesse momento alguém se aproxima: quem é, o que está fazendo com as mãos, o que é aquele negócio que esse homem tem na mão? São cerca de onze horas da manhã: na Avenida Rio Branco os engravatados cumprem suas rotas e rotinas diárias, na Praça da Sé meu avô compra um bilhete de loteria, um homem rico acaba de nascer.

1.1 O texto acima foi produzido a partir do tema “O Matuto”, que me foi proposto por T: é uma homenagem ao circuito magnífico de NEODADA que é a peripécia do livro de Zíbia Gasparetto tal como descrita neste inacreditável verbete aqui.

1.2 Há tantos embaraços e desvios de rota nesse textinho da wikipédia: há uma estrutura geral de clichê, mas há também uma série de indicadores imprecisos, enigmáticos, que terminam por trair e subverter expectativas.

1.2.1 Isso, esse jogo com subversão de expectativas genéricas, é abundante em muita ficção contemporânea: Aira, imediatamente. É, todavia, igualmente abundante a falência desse projeto, que se torna por essa via um arremedo de ficção no qual a incompetência do Autor é travestida de transgressão de gênero. Trata-se de algo bastante rudimentar: há uma incompetência, o Autor não sabe escrever aquilo, propõe-se a executar algo e falha. Um violinista erra: notamos na hora, comentamos; um jogador de futebol fura: nunca passa sem menção. Mas, em literatura, isso produz todo tipo de complicações, passando desde culpa cristã até acusações gratuitas de má fé e criação de desafetos.

1.2.2 Essa situação tem algo de demoníaco para o Crítico, para o comentador de literatura. Caso insista em cobrar perícia técnica do Autor, há várias defesas imediatas à disposição: “Não entendeu o projeto”, “Quer fazer telepatia”, “Quer entender o livro melhor que o Autor” etc. O que resta é close reading – que está fora de moda, mas que é uma disciplina da atenção, e que tem um ethos.

2. Às vezes, quando tenho de comentar um livro, me pergunto, como Amalfitano, meu personagem favorito em 2666, se perguntava diante de seus alunos: Quem se engana? A certa altura da semana passada, afligido por uma leitura tão ruim que só foi concluída por imperativos morais ligados a meu entendimento do conceito de “trabalho”, lembrei de uma das imagens favoritas do Kelvin, o livro de geometria que Amalfitano pendura na corda para que ele aprenda algo com a intempérie. Enquanto alguém está comendo ou abrindo uma janela ou somente andando ao léu, aqui estou eu às voltas com esse livro ruim, pensei. A vida é curta. Quem se engana?