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Diário Argentino 2.0

Quando estava em Buenos Aires, no ano-novo de 2009, pensei em como a vida passa rápido: uma sirene de polícia, o barulho dos fogos na meia-noite, o ruído vivo de uma cidade em comoção. Corpos ardentes que não são meus, muito inebriados, celebrando o arbitrário, o vão, o viver. Va bene, penso com meus botões, e vou caminhando pela Corrientes tranquilo e esperançoso. Chega de ser adversário.

Aqui, em Buenos Aires, teria uma vida de poucos e bons pertences: os livros me enriqueceriam, e seria amigo dos livreiros da Gandhi e da Hernandez. Andaria por aí com meu Cinquecento, que estaria velhinho, mas seria útil, não me daria trabalho e seria preservado sem frescura mas com amor: já nos vejo, eu e minha mulher, entrando no carro de manhã, aquele gesto único de baixar o banco e jogar lá atrás a bolsa, aquele desleixo do hábito e da segurança. Teríamos poucas coisas, mas a vida seria mais leve, dias de afazeres e despretensiosa sabedoria, dias de poucos planos, um homem e uma mulher que estão mais ou menos cagando pras certezas. Além disso, haveria a literatura e a política como assunto perene de queixas e opróbios.

Estamos em Buenos Aires, e agorinha mesmo estava levando o lixo para fora: fechei o saco na cestinha, caiu um pouquinho de pó de café fora, fechei o saco direitinho, fui lá fora, voltei, fechei a porta, e depois fui pegar a pá e um pano pra limpar a sujeira e sacudir o pó no saco de lixo novo que coloquei na cesta, e essa é a vida. Era sábado de manhã, acordei cedo, fiz chá, estava ouvindo Another green world. Viveríamos bem em Buenos Aires, teríamos vivido como nobres no exílio, discretos e voluntariosos com nossos desejos miúdos.

Meus amigos lembram da época em que eu era o Rei da Noite com alegria: graciosos com minha memória inadequada, me elogiam, são bons. Não há porque culpar nem a época nem os outros por nossos equívocos: abracei meus equívocos com a alegria que César Aira teve quando reencontrou seu cachorro perdido, quando ele tinha dez anos, em Pringles. Um cachorro perdido, um encontro, um garoto feliz, e a música preciosa dos acidentes perfeitos que acontecem o tempo todo em Buenos Aires ou em qualquer lugar.

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Dia de Beckett

Um dia como esse hoje, tarde magnífica, fui levar a cachorra pra passear e dei graças a deus de não ser hikikomori.

Fui comprar o jornal, não tinha Estadão, mas tinha O Globo. A alegria ocorreu, mas como sói ocorrer, durou pouco: o Prosa e Verso cantava loas à pseudo-majestade Ferreira Gullar, poeta laureado, esteta ressentido, fruidor de arte ortodoxo, ex-comunista, anti-petista, abusivo, monótono, chato – mas celebrado que só. Pouco antes de sair de Belo Horizonte, lembro de assistir a uma palestra dele: foi ovacionado às custas da rudeza arrogante com que tratou Duchamp e arte conceitual – isso foi perto do lamentável incidente dele contra a Laura Vinci. Foi ovacionado: devia estar empoderado, o velhinho, deve ter saído do salão de conferências do Palácio das Artes se sentindo centroavante na vida, se sentindo muito mais e melhor que o pífio reaça que estava sendo. Triste destino o de envelhecer acreditando-se um exército de um homem só – triste envelhecer numa metáfora bélica. Bom, que seja: triste para mim. Vai saber o que o outro celebra em si.

Na praia, as barracas no chão, uma imagem que nunca tinha visto antes, o dia magnífico, lindo mesmo, a enseadinha mansa, umas crianças, um casal de gringos. Uma senhora cheia e sorridente, parecendo Aunt Jemima, se aproveitou do vazio e levou um isopor pra vender cerveja. Quando tinha treze, catorze anos vinha aqui de ônibus, passava o domingo na praia, seminu e, que me conste, sem dinheiro nenhum.

Minha cachorra, tão adorável, o fim de tarde e, no mar, a linha do horizonte mais escura, tudo azul, nenhuma nuvem. Como não lembrar de Beckett num dia assim? Pois consta que um dia Beckett estava caminhando com Paul Léon, estão nos Champs Elysées, digamos que estão indo tomar uma, e a tarde está exuberante – como essa de hoje. Léon puxa conversa, dizendo Dia lindo, hein, Sam? E Beckett olha ao redor, como se até então estivesse distraído da circunstância, e confirma o valor de verdade da afirmação de Léon dizendo É mesmo, lindo mesmo. E então Léon – em um movimento no qual me reconheço, com o qual me identifico, que poderia ter sido meu – se empolga e diz Pois é – num dia assim você se sente feliz por estar vivo! E Beckett – em um movimento admirável, no qual reconheço a pessoa que eu desejaria ser mas nunca serei, que jeito – responde Ah, Paul, aí já não sei – eu não iria tão longe. E os dois se entreolham – e riem, são amigos, em alguns minutos beberão uma cerveja.


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Problemas da Escrita de si, versão doméstica

Um de meus alunos – um bom aluno, com quem já havia trabalhado em outra disciplina – me entregou um desses textos autobiográficos que costumo pedir que produzam nas primeiras aulas dizendo Esse foi um dos textos mais difíceis de produzir pra mim, acho que foi o texto mais difícil que eu produzi na faculdade.

Há uma certa perplexidade de minha parte; penso que, se o texto trata do assunto “eu”, considerando ainda por cima toda a configuração contemporânea, nada mais imediato e automático, não devia haver dificuldade. Onde está o problema?

Por essa via, a perplexidade logo dá lugar a alguma perspectiva e, talvez, algum entendimento do que pode estar em jogo: colocar-se no texto não é necessariamente fácil, a escrita de si também tem seus desafios, a configuração do que é aceitável dizer na academia é em geral adversária desses exercícios, escrúpulos sempre estão associados a dificuldades – por aí vai.

No negócio de escrever, a clareza e o enigma: o estar disponível para a escrita, o que é minimamente necessário para que se escreva. Barthes, em Uma espécie de trabalho manual, comenta o caráter artesanal da escrita, dizendo que a própria lentidão da escrita o protege. Proteção, abrigo, defesa: de quem, de quê? Claro, também se escreve com pressa – mas essa escrita à qual Barthes se refere solicita certa lentidão, acolhe a hesitação como princípio ativo, não arremete nem corre. Responde, antes do ocorrido, à frase Publico x textos por ano, que ouvi outro dia, ostentada por um idiota que é, inclusive, como é costumeiro, tido por proto-idiotas como modelo moral: o mané diz sem hesitar, confirmado pelo espírito de época, como se houvesse valor necessário aí.  Saer, como sempre aparecendo em minhas conclusões – o que diz que as conclusões não são, de fato, minhas, mas sim dele – fala, em uma entrevista, de sua predileção pelos cadernos, pela escrita a mão, pela materialidade de uma relação com o fluxo do que se escreve que, em sua particularidade, produz uma pontuação, conduz a uma sintaxe, do mesmo jeito que a falência do fôlego forja a frase de um jeito ao invés de outro. Uma coisa que, em outro, eu tenderia a repudiar, mas que dita por Saer soa, obviamente, distinta para mim: fazendo um elogio da escrita como metempsicose, que tema mais borgiano, Saer diz que escrever é uma espécie de translado no qual o vivido passa, através do tempo, de um corpo a outro. E, como é Saer quem disse, e como sou eu quem lê, algo acontece que me faz não apenas ler o que meu aluno disse daquela maneira há dois dias mas, também, escrever isso aqui.

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Academic Tour 2010

O curso, o simpósio, a jornada. As questões dos alunos, as conferências, os debates. O clima eventualmente falanstérico do simpósio, o igualitarismo, os bons modos, a atenção cuidadosa, a argúcia, a minúcia, o zelo, a modéstia. A alegria adventícia dos consórcios improváveis. O turismo acadêmico. Os desejos, o burburinho, o tédio, o cansaço.

O novo semestre, os alunos novos, os alunos velhos, os colegas de sempre, o mesmo prédio, o rotineiro, as expectativas cristalizadas, os desejos de mudança, os hábitos arraigados, o encanto da rotina, o massacre da rotina. O valor de verdade da crítica, a ficção como um problema, o caso Defoe, por uma nova poética do ensaio, crianças diante do mistério dos laços familiares.

Se perder em uma manhã qualquer, em uma rua de Buenos Aires. Ser de novo jovem, cheio de riscos a correr. Reencontrar-se com seus heróis, seus homens de papel, sua vida romanesca, seus agasalhos tardios, seus trinta anos. Ser de novo um leitor, um candidato a algo, menos melancólico, um figurante em um filme da nouvelle vague, um amigo do Autor, um crítico literário, um professor e, num dia de inverno, diante da porta, hesitar um pouco, não por receio, mas pelo prazer da delonga e do tempo sem custo.

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Viagens, Babu

Quando viajou para a India, volta e meia confundiam ele com Nana Patekar. No, no, no: Nana Patekar no pay, no pay, no pay please!, discutiu enfaticamente um guia turístico. O cumprimentavam, chamavam seu nome, Nana Patekar! Babu! A comida que pediram veio Specially delicious for Babu, e com mil sorrisos.

Quando enfim viu fotos de Nana Patekar ficou triste, pois achou que o chamavam de feio e canastrão. Mas isso foi retrospectivamente: na hora em que o reconheciam e premiavam como se ele fosse outro, era alegria e incompreensão, e a leveza de estar em um lugar estranho e, ainda assim, ser tratado como se fosse conhecido.

Essa alegria particular e esse mistério ele às vezes reencontra lendo. Fato é que, quanto mais lê, menos isso ocorre, inclusive porque ele se tornou um profissional da literatura – o que quer dizer que ele lê cada vez mais de uma certa maneira e cada vez menos de outra, que há um desgaste e um certo cansaço, às vezes ceticismo e cinismo também.

Mas ainda, apesar de mil pesares, mesmo que seja um pouquinho e logo evapore em decepção, o frisson único de ser outro por um tempo ainda o mobiliza e o motiva a cada leitura, pouco importando seu propósito. É como se ele ainda estivesse andando pelas ruas da Velha Delhi com sua namorada, com vinte e poucos, vivendo em sua própria pele a vida de um outro, experimentando os benefícios casuais de ser alheio a si mesmo – como se estivesse ainda vivendo aquele momento de ligeiro estremecimento e esquecimento de si que permitiu inclusive que ele se aproximasse daquela mulher que, a seu lado, na India, ri – como ele, sem entender exatamente a graça, mas curtindo a graça mesmo assim.