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Amigos, Literatura

1. Uma amiga – pessoa criteriosa, boa leitora, em cuja opinião sempre confio – me diz Antonio, o livro novo do Roth é pavoroso. Que coisa horrível. É triste ver a decadência de um autor tão bom. Ladeira abaixo total. Ouço constrangimento: é como se ela tivesse vergonha da performance manca do autor que, com razão, admira. Eu, que admiro Roth, embora o admire menos que ela, sinto empatia, me sinto próximo do sofrimento dela. Enigma indecifrável, enigma perene: como o Grande Autor faz merda? Como, no Grande Autor, a performance do amador? Onde está o circuito de comentaristas imediatos do Grande Autor para dizer que ele está fazendo merda? Sabemos que as coisas são mais complicadas, me sinto um pouco melancólico com a frustração da minha amiga, assim é a vida literária: nos esforçamos, aqui está nosso tempo e dinheiro, ambos em geral escassos, lemos, e eis que nos fudemos – mesmo com o Grande Autor.

Depois, comentando sobre esse assunto com o Kelvin no gtalk, ele me disse Isso dá um bom título para um livro de um, digamos, filho espiritual de Garcia Marquez: História da Queda de meus Autores Queridos. Muita maiúscula, capa em tons pastéis, talvez um Iberê na capa. Que tal?

2.Leandro, que também é criterioso, um bom leitor, em cuja opinião sempre confio, tem razão: o Voo da Madrugada, do formidável Sérgio Sant’Anna, é irregular. Ele me disse Olha, Antonio, todo mundo elogia o Serjão, você vive evangelizando, falando pra ler o Voo e tal. Mas é o seguinte: aquilo ali parece um livro em que ele passou a mão na gaveta, reuniu uns trocados e mandou publicar. Tem ótimos contos, o do título é um deles, mas tem uma novela meio remendada – O Gorila, que é engraçadinha, mas parece que chegou uma hora que ele deu uma esticadinha e faltou cortar, e ainda tem um ensaio publicado na Bravo!, que li de novo agora dentro do livro e que me pareceu deslocado no volume. E que é bom, é bom – mas fiquei pensando O que é que isso tá fazendo aqui? Olhando as partes, parece bom, mas a soma, pra mim, resultou num livro ruim.

Ouvi isso e pensei, claro, o que qualquer pessoa em minha situação pensaria: Porra, Leandro. Não tenho argumentos – acho o livro excelente, e talvez varra pra debaixo do tapete o que ele salienta porque, vai saber – porque amor é isso, porque leio Sérgio Sant’Anna desde a época em que ele publicava na Status, vai saber. Quando fui lidando de maneira mais exploratória e sistemática com as possibilidades da narrativa curta contemporânea, muitas vezes tinha a impressão de já ter visto aquilo antes – em contos do Sérgio Sant’Anna. Coover? Barthelme? Carver? Parece que, à sua maneira, Serjão já estava lá quando encontrei todos esses autores – e talvez fosse o caso mesmo de avaliar a exposição a certos autores, tradições e possibilidades quando de sua estadia lá na Iowa Workshop: já vejo o título da dissertação: Inflexões, Influências, Procedimentos: Sérgio Sant’Anna na Iowa writers’ workshop, 1969-1970. Mas, só pra gente retornar aqui ao assunto à mão, disse, claro, como dizia antes, Porra, Leandro e disse também, Tá, você tem razão, mas você também tá pedindo demais, demais mesmo. Olha, pensa aí: troco o Conto Obscuro pelas Obras Completas do Paulo Scott, que tal? Tá vendo como eu tô caridoso? Tô saindo perdendo nessa barganha, broder! E ele, claro, riu.

3. O Diego me escreveu um email dizendo, entre outras coisas, que está lendo o Submundo, de Sua Santidade Don DeLillo – eu nem respondi, estou respondendo agora. Não consigo compreender porque meus alunos não aparecem na aula portanto volumes de Don DeLillo – porque dentre tantos alunos que tenho que são obviamente alunos de Letras frustrados e miserabilizados com sua própria incompetência para passar no vestibular para Comunicação, nenhum se dá conta de que há tesouros à sua disposição entre as páginas de um livro de DeLillo, e talvez uma vida menos amarga e menos desencantada adiante. Não vejo a hora de ocupar o púlpito de uma sala de aula ou de um salão de conferência para fazer uma homilia daquele momento em que um personagem em Os Nomes diz “Se eu fosse um escritor, que maravilha seria se me dissessem que o romance está morto. Imaginem que alegria, quanta liberdade, poder trabalhar nas margens, sem a opressão de uma presença central: eu ia ser uma assombração da literatura, que bom”.

Meu volume de Submundo é essa tradução brasileira, do PHB – eu já estava com o livro na mão há um tempão e um dia, em outro lugar (mas onde? não faço a menor idéia) li “Pafko at the Wall” e pensei Porra. Outro dia mesmo comentei aqui, aludindo ao filme da Martel, os diálogos a la DeLillo. Isso deve ser lido assim: “diálogos do caralho”, diálogos que são o bicho”, “diálogos fenomenais”, “diálogos que redescrevem a concepção de diálogo”, “diálogos que são o diabo para quem quer escrever e os lê”. Não sei mais se foi o Rúpia que me deu o livro de presente, ou se simplesmente pedi o livro emprestado e me apossei (de qualquer sorte, obrigado, amigo). Sei que passei uns quinze dias com ele na mão, era na época em que a Lu morava longe e eu andava pra lá e pra cá como um caixeiro-viajante; o livro é um tijolo, é ofensivo um livro daquele tamanho pra quem viaja. Mas isso dá ainda mais razão para meu orgulho ao ver a lombada torta na estante, o livro virado do avesso na leitura, as páginas cheias de sublinhados e grifos e anotações: eu achava que ia escrever algo sobre o livro mas, ao invés, e talvez com mais proveito para todos os envolvidos, só usei o livro para aprender a ler.

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Time flies

Por incrível que pareça, um dia (um dia ordinário, qualquer, que nunca seria lembrado não fosse por isso) Marcelo Rota me disse (em Inglês, como se me dissesse Oh fuckTime flies like a blazing arrow, and people change, frase de grande impacto, que vivo reencontrando. Hoje de manhã, por exemplo, depois de uma reunião de departamento, a encontrei nesse post aqui da Rachel Cozer. Chegando em casa há pouco a reencontrei num comentário que a Myriam escreveu pro post que escrevi ontem. Estou lendo um livro que nada tem a ver com isso, ou pelo menos não de cara, mas então me lembro do Amalfitano, manso e melancólico, fico pensando se vai ser esse o meu destino amanhã ou depois. Oh fuck.

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Shields, Coetzee

Pela primeira vez em muito tempo, pude terminar uma resenha, deixar descansando dois dias, e reler, e revisar, e alterar umas coisinhas antes de enviar: que coisa mais refrescante e feliz. Semana que vem estará lá, no caderno, e será outra alegria.

Ano passado, em Setembro mais ou menos, liguei para minha mãe e ela disse Chegou um livro aqui pra você. Dias depois, quando fui lá, qual não foi minha surpresa ao encontrar Summertime, de Coetzee: junto, nenhuma explicação, só uma nota de envio com informações de almoxarife, na qual estava escrito à mão “Review copy”. Não eram as provas do livro, era o livro mesmo, capa dura e tudo – não faço a menor idéia de quem foi o responsável por isso, e sei que há uma cadeia de relações e indicações por trás de algo assim; o fato de terem enviado para a casa de minha mãe indica que tinham um endereço antigo meu, mas e daí? Por mais que pensasse continuava ao léu – mas, é claro, muito feliz, com o livro na mão.

Comentei isso com o Kelvin, e ele me disse Não vejo a hora de isso acontecer comigo também, Tio. Ele estava, mais uma vez, coberto de razão (isso é um puta non sequitur, mas é também verdade): eu também durante muitos anos desejei que isso acontecesse comigo, desejei ser surpreendido por livros chegando em minha casa inadvertidamente. Claro: como todos os desejos, este, quando se realizou, acompanhou a forma que lhe é própria, agregando mil sedimentos à sua casca em uma deriva peculiar entre a formulação imaginária e a coisa batendo à sua porta, obviamente uma forma incompatível com aquela, sempre pálida, mansa e unilateral, com a qual aparece pela primeira vez. Assim, os livros chegam, e são muitos, e muitos sem ter necessitado de minha agência de maneira alguma. Mas uma surpresa como essa, receber o livro de Coetzee recém saído do forno – isso é raro sim, e é bom sim, e eu desejei muito ocorrências como essa em minha vida. É um pouco como as “impossible good news” que Chesterton mencionava, e que minha irmã tanto preza.

O livro é formidável, e senti muita alegria ao terminar essa resenha – não só por ter conseguido revisá-la e fazer um texto que, creio, não insulta o texto que o motiva, mas porque tem um trabalho do cão por trás da coisa toda, desde as conexões misteriosas entre meu nome e o de alguém, alhures, que houve por bem me enviar o livro, até a leitura do livro, cheia de momentos muito pungentes, que comentei com o Tiago e com o Leandro e, também, claro, com o Kelvin, passando pelo post que escrevi na época em que li o livro, até chegar ao texto, esse, que acabei de terminar.

Assim que terminei, coloquei Loveless pra ouvir. Talvez, penso agora, tenha escolhido esse disco porque ele parece aquela obra que silencia seu autor: o que fazer depois disso, o que produzir mais, o que produzir ainda? O que será que Coetzee ainda escreverá, o que vem dali, o que virá, como eu lerei, quem lerá? Responder essas coisas é como querer desvendar o paradeiro de velhos amigos, aqueles com com os quais eu tomava cerveja e falava de Kevin Shields no fim da noite em verões passados, todos longe agora, remotos como o tempo em que eu era um cara que desejava receber em casa inadvertidamente livros para ler e comentar e não fazia a menor idéia dos livros que leria assim, do que viria junto com os livros, do que virá.

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Martel, Marx

Não é curioso? Assistindo hoje a O Pântano, de Lucrecia Martel, com meus alunos – e era a segunda vez que assistia, a primeira foi logo quando o filme apareceu, em 2001 ou 2002 – observei que o filme parece inverter a máxima marxista que reza que a História primeiro acontece como tragédia, depois como farsa. Observe que a consumição de Luchi – imolado no quintal em uma morte besta que provavelmente teve como causa primeira, além da infância e sua implacável curiosidade, o rato-do-banhado – é primeiro encenada enquanto jogo no mesmo local. Portanto, primeiro a farsa, a ficção, e depois a tragédia.

Podemos também argumentar que a fonte da morte no filme é mesmo a ficção: é a narrativa sobre o rato-do-banhado que engendra o medo que consome Luchi e o medo que o consome é que o leva à morte. A tese para mim é má, pois ofende a ficção, tornando-a fonte do mal – e eu quero que ela seja a fonte da salvação, pois nisso acredito. Mas também acredito que há de ser melhor para a ficção que ela seja má e boa, parêntese da tragédia e tragédia ela também. Estamos falando, afinal, de um filme que em uma das cenas nos mostra um menino caolho, no meio do mato, com uma espingarda apoiada no ombro, tentando insistentemente encontrar alguma coisa no cu de um cachorro.  Um filme no qual os diálogos são puro DeLillo, onde os personagens falam a maior parte do tempo apesar dos outros, e só eventualmente uns com os outros. Um filme que celebra em um passeio na represa, que junta índios e brancos em um breve interlúdio de festividade comum, uma espécie de paraíso friável e fudido. É um momento mínimo, quase invisível, muito volátil – e magnífico.

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O fim do livro de Maurício Raposo

Como em quase qualquer coisa, há uma certa ambiguidade na ocasião do fim da leitura. Alguns livros se permitem o abandono, e com isso o fim da leitura parece uma coisa conquistada, um objeto adicionado a seus pertences. Outros repudiam qualquer sensação de conquista: uma vez finda a leitura, o que continua com você é a perda. Você perdeu, o livro não está mais com você, aquela companhia se foi, e você vai continuar sem ela – e com a sensação da perda.

Assim, você se vê numa noite de quinta-feira, perdido em sua própria casa, pois seu livro terminou: você estava lendo sobre Henry James, algo que tem uma aura toda particular para você: conhecer, ler, usar Henry James é um indicativo de que você se afastou muito da pessoa que era quando saiu de casa, pois você tem uma idéia meio demodê de formação que está indissociavelmente ligada a Henry James e outros luxos afins. Então você passou os últimos dias, uma semana difícil, uma semana hostil, enfiando essa leitura de uma “biografia romanceada” de James nos hiatos entre as tarefas. A denominação é cretina: o livro é ficção: é bonito e bom, e é ficção. Você pensa E daí que flerte com supostos acontecimentos documentados? Quem inventa e não faz isso que atire a primeira pedra. Nossa épica, mesmo que se prove fudida e gasta, é essa: uma invenção vampira, uma criação dependente. Não é secundária, não é necessariamente derivativa – mas por mais que se esforce, e tem se esforçado, não abandona sua amante, que é também sua nêmesis, suas vias de fato.

Está claro que, se você está pensando essas coisas por volta de uma e meia da manhã, sua noite está em alguma medida comprometida e, como um estranho em sua própria casa, você se demora diante da proporcionada desordem das estantes, quer saber o que vem a seguir, quem ocupará o lugar vago, quem virá resolver alguma coisa agora que você terminou de ler The Master, agora que você não sabe mais o que ler, ainda. Você se dirige ao setor Henry James: será a hora de reler algum desses contos? Reler What Maisie knew? Coisas de crítica e comentário: Os prefácios, com o prefácio aos prefácios escrito pelo Marcelo Pen? O capítulo de Eakin sobre os textos biográficos de James? O primeiro volume da biografia de Edel? Saer escreveu um bom prefácio para “The lesson of the Master” – onde está isso? É titubeio, e passa tempo, mas é tudo vão, você sabe: essa noite, essa solidão, é isso que você vai ter.

Então você encontra, enfiado na estante acima dos livros, entre alguns pocket books largados e amarelíssimos, quase impossíveis de se ler agora, e nem são tão velhos assim – The turn of the screw, The Aspern Papers, um Conrad, todos comprados em um balaio que tinha perto do restaurante da UFMG – você encontra uma moldurinha, um porta-retratos barato, com uma foto dos irmãos James, os dois já bem coroas, no jardim da casa de Henry em Rye. Essa foto, que você carrega há mais dez anos, foi parar na moldura como um presente de Natal e de despedida para um amigo, um presente que nunca foi enviado: a legenda, que dizia originalmente William and Henry James, Lamb House, 1900, está riscada e embaixo, escrito à mão, está agora Antonio Marcos Pereira e Maurício Raposo, Belo Horizonte, 2001. A consequência óbvia de encontrar com um objeto desses em tais condições é ponderar vagamente sobre amizade, perda, erro – e, também, claro, sobre a força pálida de alegrias passadas, o prazer de colocar as mãos no bolso do agasalho em um dia frio, o vazio todo particular da espera, a casualidade apropriada da mão no ombro do amigo, do irmão, do cúmplice eletivo, seu abraço.