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Apreço

1. Pelo Conhaque Fundador (Hemingway! San Fermin!), magnífico e atemporal: há mais de cinco anos não tenho a honra.

2. Pelos contos de John Cheever – e, a César o que é de César, por  toda a parafernália do Cheever: a casa, as cartas, os cachorros, a bebedeira, as mulheres, os amigos, a semiviadagem.

2.1 Terron aplaude o Cheever aqui, e eu aplaudo o Terron aplaudindo o Cheever.

3. Estou no trabalho, continuarei aqui por mais de uma hora, esperando. Abro a estante: tenho algumas opções de leitura para passar o tempo: a) A portrait of the artist as young man b) Ingo Schulze, Nine Lives c) Coetzee, Summertime d) 2666.

O que ler? Não sei – mas sei que gosto de ter esse tipo de dúvida.

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Romance de Formação – 2

Em meus anos na loja de discos, dois clientes foram de fundamental importância em minha formação. O fizeram  inadvertidamente: estavam apenas fazendo o que fariam de qualquer jeito, mesmo se eu não estivesse lá: fui só uma casualidade, duvido que lembrem de mim.

Um deles, cujo nome esqueci, era um cara de uns trinta anos, rasta, só usava roupa afro, ganja, etc. Não sei exatamente o que ele fazia da vida, mas suponho que trabalhasse em algo na área cultural na região do Pelourinho: talvez eu tenha ouvido algo e esqueci que ouvi, e lembro hoje da impressão de ter ouvido. Era um sujeito abominável, arrogante e sempre disponível para humilhar e espezinhar; também era um adorador de si mesmo: falando de como ele era X, como ele fez Y, quando ele comprou Z. Suas aquisições na loja – sistemáticas, obsessivas, frequentes demais: era um maníaco, que obviamente comprava mais do que podia ouvir – consistiam sempre, e exclusivamente, de reggae, dub e ska.  Foi por causa desse cara que ouvi pela primeira vez Alton Ellis, King Tubby, The Upsetters. Coisas boas, o que talvez sirva como mais uma evidência de que se pode encontrar uma pérola mesmo no maior monte de bosta.

O outro, o nome também esqueci – mas lembro do sobrenome do apelido dele: era “Seco”, isso por um hábito que ele tinha. Esse era um cara de outra cepa: tinha mais de trinta, talvez morasse ainda com a mãe, e tinha um jeito duro, anguloso, vincado – o rosto lembrava um pouco a matriz de onde saiu o rosto de Pasolini. Estava sempre com uma roupa que parecia dizer que ele tinha deixado o paletó na cadeira, roupas sociais, sempre meio gastas. Esse era gerente de uma loja de móveis na região, lembro de passar na porta e ver ele trabalhando lá, atendendo uma pessoa, conversando com os outros caras da loja. Ele falava de outros assuntos: futebol, mulher, bebida, loteria. Ao contrário do Rasta, que parecia não ter problemas de grana, esse cara parecia duro. Parecia labutar, se privar  pra comprar os discos que ele comprava – que eram todos de jazz – só jazz. Esse cara tinha o hábito de dizer coisas como Ouça esse solo. Aí, velho. Scott LaFaro. Porra. SECO. Seco, porra. – com ênfase no seco, donde o apelido.

Tinha muita inveja desses caras. Mesmo achando o Rasta detestável, era um cara que sabia o que queria – que não sofria de minha dispersão, de minha inconsistência, eu que queria ouvir tudo. E com o outro eu ainda tinha uma certa empatia – ele tinha uma coisa melancólica e trágica, e eu sabia que tinha coisa a fazer nesse departamento, da melancolia e da tragédia; essa parte, aliás, deu bem certo pra mim. Vinte anos depois eu, que nunca fui nada pra esses caras, estou aqui me estapeando com um monte de coisas contraditórias que me fazem querer escrever sobre esse período, sobre essa experiência, sobre esses personagens.

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Notas, 09 de Março de 2010

1. Meu Pai o Folhetim: A alegria de ler o livro de Mark Frost, The List of Seven — folhetim desabusado produzido por um autor que sabe exatamente o que quer fazer, e que me devolveu a mil alegrias infantis, me fez gargalhar e esquecer de mim mesmo por horas — foi substituída pela tarefa de ler um livro que me impressionou justamente porque seu autor, aparentemente tão experiente quanto Frost, é incapaz de dizer o que quer fazer. Ou, pelo menos, foi incapaz de dizer isso a mim.

1.1. Devo, com isso, julgar que o livro é mau ou julgar que má é minha flexibilidade hermenêutica? Tomem aí, seus sacanas que tem a desfaçatez de insinuar que vida de crítico é fácil.

2. É O TCHAN é uma merda: Estou cheio de amigos decentes e bem-intencionados que tem um pedantismo estético da porra: estão dispostos a aplaudir uma merda popularesca qualquer se lhes convém como diacrítico inclusivo (uma bandeira que diz “Vejam, eu não sou só high brow, eu também sou povão!”) mas torcem o nariz para coisas fenomenais que não trariam rendimento imediato em popularidade. Muito bem: enquanto escrevo estou ouvindo De Leeuw.

2.1. As folhas da música de Satie para piano ficaram anos e anos esperando De Leeuw para enfim encontrarem uma morada. Depois dessa interpretação, desgraçados dos próximos que se aventurarem em uma Gnossienne – estarão na mesma situação que o pobre Keith Jarrett com suas Variações Goldberg depois do Glenn Gould: tadinho do Keith.

2.2.1. Os que lêem o que eu leio hão de localizar, no item acima, bovarismo meu com O Náufrago, de Bernhard: va bene, é vero.

3. Homenagem a Ferreira Gullar: Sempre quis escrever coisas assim, peremptórias e sem muita preocupação com a justificativa ou com o imperativo de oferecer a quem lê alguma medida de razoabilidade. Na verdade já fiz isso – em cartas, em diários, mas nunca em público. Há um prazer na coisa, uma sensação de traquinagem infantil, uma solicitação proibitiva com a perspectiva de ser flagrado. Mas há a feiúra de fazer-se voluntariamente comparável a Ferreira Gullar, e isso é imperdoável. Ou seria imperdoável, se eu não estivesse feliz.

4. Razão para a felicidade: Minha mulher faz aniversário hoje: I clap my hands and say YEAH.

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Fábula zen adaptada

Estava conversando com Maurício hoje sobre isso – na verdade, a conversa era sobre a gota de Conrad, mas de uma coisa a outra terminamos nisso de histórias zen e lembrei de uma coisa que li na biografia de Stape, The several lives of Joseph Conrad.

Conrad estava no Congo e, como sabemos, quase nada dava certo. O barco, arruinado, era remendado no que chamavam caridosamente de porto; entediado e febril, ele não sabe o que fazer, espera uma resolução, que resolvam por ele, até que de fato o acaso resolve, pelo menos em parte, sua indecisão, confinando-o, doente, à cama.

É fim de tarde, ou parece isso pela luz. Em seu torpor debaixo do mosquiteiro, ouviu dois homens murmurando no alpendre, e esforçou a vista para enxergar melhor. Um deles tentava acender um cachimbo e, depois de ouvir uma frase, deixou o cachimbo cair – tremeu? Terá tremido? O outro insistia – falava em voz baixa, mas com veemência – e tocou no ombro do que queria fumar, ergueu um dedo. Não, não!, dizia o primeiro, enquanto se abaixava para recolher o cachimbo e um pouco do fumo. Não, não!, insistia, respondendo ao murmúrio do insistente.

Conrad viu e ouviu isso, ou acha que viu e ouviu – depois, não vai conseguir lembrar quem falou o que, ou mesmo se alguém falou alguma coisa. O que tinha sido testemunhado juntou-se ao meio mal lembrado e resultou que foi com isso que Conrad sonhou logo depois:

Um homem caminha, muscular mas ofegante, andrajoso; quer sair da selva, se rasga nos cipós, o mato é hostil. Vê um esmaecimento e isso lhe parece bom: se dirige pra lá e, quando se aproxima, sente um puxão na perna. Olha – é uma jibóia, imensa, que começa a se enroscar. Decide ignorá-la e insiste avante, se embaraça nos passos agora mais pesados: está negociando a caminhada com um membro sinuoso adicional e com vontade própria, mas adia este problema, e prossegue. Já é fato: ouve o resfolegar da máquina do trem, a vibração da máquina, está perto de um trilho de trem. Mais uns passos, mais dificuldade, menos fôlego, cai, tropeça em si mesmo, a jibóia avança entre suas pernas mas, enfim, alcança os trilhos e, nesse exato momento, seu olhar divisa um lampejo do outro lado das folhas: é uma manta, parece um planta que se move e recua um pouco e, antes que possa sequer discriminar o que vê, muito menos refletir ou ponderar sobre um curso de ação possível, tendo já arrastado a jibóia por um bom quinhão, sente o vapor da proximidade do tigre. Cai nos trilhos: uma parafernália indecifrável. O trem se aproxima, vira a curva. Ei-lo agora:

fabulazen

Conrad acorda nesse momento, está suado. Que alívio!, pensa, Que sorte! Anos depois, quando lembra dessa história – incomodado com a gota, entediado e adoentado, mas agora bem fornido e aconchegado em seu inverno britânico – pensa também que não sabe quem teve sorte. Ele ou o homem do sonho? Quem teve sorte?

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Romance de Formação – 1

1. Já proferi, com valor de verdade, as seguintes sentenças: Aprendi Inglês com Bob Dylan (1995); Aprendi Inglês por causa de Bob Dylan (2006); I’ve started to learn English with Bob Dylan, trying to translate his lyrics (1989).

Dylan Rotolo Blues

2. No meio de uma conversa, com propósito de azaração, por volta de 1991, proferi a seguinte frase: Não, que nada, nunca gostei de Sex Pistols não, sempre achei chato pra caralho. Bom é Clash, punk é The Clash, London Calling, ali sim. Azaração foi mal-sucedida.

Joe Strummer era meu pai

3. “Comprei” esse disco como parte de meu “salário” enquanto trabalhava na Kaya, por volta de 1988.

Shake dog shake