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Na praia com Sylvia Plath

1. Sloterdjik/ Zizek. Um dia fui numa conferência do Zizek. Uma anomalia: um domingo ensolarado, um centro de cultura alemã, Zizek com duas rodelas imensas de suor debaixo do sovaco de uma camisa com um desenho do Mickey. Todavia, como às vezes acontece, é na morada do bizarro que encontramos a companhia amiga que mais nos é cara. Pois a meio caminho de sua exuberante e careta superinterpretação de They Live, de John Carpenter, Zizek vai e menciona mais ou menos o seguinte:

O Ocidente projeta uma imagem de si mesmo como sendo fundado na necessidade de compreender o Outro. Ora, talvez a proposta de Sloterdjik seja bem mais próxima do que é o caso. Sloterdjik diz que progresso social é criar mais e melhores condições para ignorar o Outro. Compreender dá muito trabalho, e mesmo a performance da compreensão, que ocupa tantas vezes o lugar da própria coisa, dá muito trabalho. Não quero compreender meu vizinho: quero poder ignorá-lo, e ser ignorado por ele.

Há algo duro e cínico aí, e a extensão indiscriminada desse ethos me envergonharia – claro, sou um velho nerd pós-humanista, mal e porcamente informado sobre o contemporâneo. Mas volta e meia penso nisso, nos usos disso. E em particular, penso nisso quando estou nadando. Hoje de manhã mesmo: um dia sombrio, gelado, daqui da janela nuvens carregadas. Chuva, talvez; mais certo era um dia frio, um vento cortante aqui na descida da ladeira, aquelas lufadas vindas do mar que enchem o agasalho. Nem hesitei, nem me passou pela cabeça não ir. E fui. Lá na piscina estava só, junto com dez pessoas, que salvo a mais elementar polidez (“Bom dia”, “Tá usando a prancha?”) ignorei.

2. Utilidade Pública. Projeto inovador e arrojado do camarada DP, que aparece aqui para enlevo de todos.

3. Leituras de fim de semana. Como sempre, a ganância me domina. Mas deve ser algo que inclua a) Shklovsky, A sentimental journey: Memoirs, 1917-1922 ou b) The Letters of John Cheever ou c) Carola Saavedra, Paisagem com dromedário ou d) Margulies, Rites of realism. Além disso, posso garantir que, em algum momento do fim de semana pensarei em a) Henry James (O Mestre, Pessoal, O Mestre!) b) Bolaño (2666 tá na boca do povo, e tem até concurso de resenhas no site da editora!) c) Kelvin (amigo é pra essas coisas) e d) Sylvia Plath.

Como é do conhecimento de vocês, a grande anomalia nessa lista é a presença da famosa poeta suicida. Mas observem essa foto:  imaginem uma poesia de pouca morte, de nenhum desejo de morrer, como a que nós temos quando estamos felizes o suficiente para ir à praia, e uma pessoa querida quer uma foto nossa, e nem pensamos antes de sorrir para a câmera, para o sol, para o resto do dia, para o resto dos dias.

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Taprobana, Bowles

1. A primeira vez que li Paul Bowles foi na biblioteca: eu passava muito tempo lá, às vezes tentando estudar, mas na maioria das vezes só explorando, e foi assim que encontrei o livro na estante. Achei curioso, não sabia nada sobre o autor, mas vi que tinha uma introdução do Gore Vidal – desse eu já tinha ouvido falar. Li a introdução, que me deixou ainda mais interessado – mencionava, claro, o Marrocos, e o caráter escandaloso de algumas narrativas. E por isso, por causa de minha necessidade de negligenciar minhas obrigações, matar o tempo e me esquecer de mim mesmo, de uma introdução de Gore Vidal, e de meu interesse por histórias escandalosas, comecei a ler Bowles – lá se vão vinte anos.

2. Quando eu estava fazendo o doutorado, volta e meia acalentava a idéia de usar a história de “Um episódio distante” como uma espécie de pano de fundo alegórico para o que eu pretendia discutir na tese: lembro de ficar sentado em uma poltrona velha que eu tinha herdado do espólio da mãe de um professor – lembro que li Vida: Modo de Usar nessa poltrona – até tarde, com uma prancheta na mão e um caderno, rabiscando idéias em torno disso, um cinzeiro que eu tinha apoiado no braço da poltrona, um suéter gasto que eu sempre usava dentro de casa.

O conto, como sabemos, é apenas um momento em uma matriz que Bowles perseguiu e reiterou muitas vezes, e fala de um linguista que perde a língua e a razão em uma aventura oriental. Eu achava que isso dizia muito, que teria muito a dizer com isso. Não tinha, não tive, nem tenho: tudo que essa história tem a me dizer já foi dito, e foi dito pelo Autor e por seus personagens, dito para mim com todas as letras desde a primeira vez que a história foi lida, numa biblioteca, em Salvador, em 1990. Nenhuma alegoria, nenhuma lição, nada a dizer: já devo ter lido essa história umas dez vezes, e a reli há dois ou três dias, no dia em que escrevi outro post sobre Bowles.

3. Durante muito tempo não soube qual era a cara de Bowles, até que um dia encontrei uma foto: ele está com a mulher, Jane, em um barco, ou coisa do gênero: a cena é muito bonita e, ao mesmo tempo, discreta, doméstica. Vemos o assanho que a embarcação provoca na água, no lado esquerdo da foto, o lado pro qual eles estão olhando; o sol está na frente do rosto de ambos; o espaço à direita é só a quietude opressora do mar aberto, só água até o horizonte. Nenhum deles olha para a câmera, Paul está sem camisa; ninguém está exatamente sorrindo, mas é fácil ficar com a impressão de que o sorriso está por perto, e que isso é bom.

A essa altura eu já tinha lido que Bowles chegou efetivamente a adquirir – comprar, possuir, ter – a ilha de Taprobana com a grana que ganhou por causa do sucesso editorial de O céu que nos protege. Invejei muito isso. Que maravilha deve ser, pensava, poder realizar tanto, ser tão premiado por ter escrito um livro. Imaginava um lugar magnífico, senhorial e um pouco descascado – mas lindo, sempre lindo, com uma beleza abrupta e enigmática só amaciada pela umidade insistente dos trópicos, e ainda com uma população nativa imprecisa, interessante, ritualística. Com tudo isso, imaginei que essa foto retratava um momento da vida do casal nessa ilha – que os dois estavam ali celebrando sossegados e satisfeitos a Sorte Grande, a Grande Oportunidade que deve ser amar e ser amado e ter uma ilha inteira só para viver e conversar de literatura vida afora. Depois, lendo biografias de Bowles, descobri que estava enganado – mas que fazer? Essa foto é linda.

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Olavo de Carvalho, Caralho

A conexão aventura e leitura nada tem de necessariamente generalizável: pode ser ausente e inócua para muitos. Mas, para mim, está sempre em alguma medida na pauta. O regime hermenêutico que aplico em geral tende a passar por uma memória anguladora da leitura tout court, e isso, que foi construído quando era criança, significava ler Julio Verne, Emilio Salgari, Malba Tahan. Embora funcione a posteriori de um jeito que é próprio de um certo profissionalismo e do que chamamos de aprendizado, há uma força na cena primária, e a avaliação do que aconteceu entre o leitor e o livro, ao passar por essa peneira da “aventura”, termina sempre virando uma resposta que dou à pergunta Saí do lugar? Há um momento em que Perec fala da atitude do garoto que, com o livro à sua frente, parece em prontidão para o mergulho no livro: essa atitude, essa prontidão para o acontecimento, e a compatível disponibilidade para se deslocar – é disso que essa pergunta fala.

Por isso hoje, conversando com o Tiago sobre o Kelvin – que anda interessado em umas coisas demoníacas – disse Pois é, outro dia a gente tava até conversando sobre The Secret Sharer, T. Acho que ele tá numas de explorar esses temas, Outro, Alteridade, e foi até que chegou naquele lance ali do post. Ele mesmo me falou mais cedo Ah, esse post hoje eu escrevi sem entender, Tio.

“Escrevi sem entender”: achei bom isso, e fiquei um tempo pensando no que isso quer dizer – e vejam vocês que achei bom primeiro, e só depois fiquei ruminando pra fazer a derivação interpretativa que me permitiria, entre outras coisas, mencionar o post do Kelvin aqui e quem sabe até comentar sobre esse problema – a saber, como um escritor pode escrever sem entender, em certa medida, o que escreve – com meus alunos amanhã. Poderia falar também sobre a questão, que tanto tem me interessado, da construção das identidades de Autor e Crítico como negociações com o Duplo, com esse Outro representado na literatura tantas vezes como anátema, ou como nêmesis. E Tiago aproveitou a deixa e disse Ah, falando em nêmesis, olha aqui esse negócio e na hora me enviou (estávamos no gtalk) isso:  

Contar a história é o primeiro nível de elaboração da experiência. O romancista não escreve para explicar nada, mas para registrar um conjunto de experiências reais ou imaginárias cujo nexo último lhe escapa, cujo sentido ele só apreende como forma estética, não como conceito explicativo. Daí o sentimento de descoberta, e ao mesmo tempo de perplexidade, que nos assalta ao lermos um bom romance. Ele nos mostra algo de muito importante, mas que não sabemos precisamente o que seja. Por isso é que ninguém pode dizer qual “o” sentido de um romance. Ele tem necessariamente muitos, e até contraditórios. Um romance é um conjunto articulado de símbolos, e um símbolo, como ensinava Susanne K. Langer, é “uma matriz de intelecções” – não a expressão alegórica de intelecções prévias. Um romance deve dar o que pensar, não um pensamento pronto. Por isso é que homens de idéias, pensadores, ideólogos, formadores de opinião, fracassam com tanta freqüência ao escrever romances: eles falam daquilo que já entenderam, não nos dão uma experiência viva carregada de mistério, de perguntas sem resposta.

Li, e prontamente disse E o que é que tem de nêmesis aí? Eu concordo com isso. Posso caçar confusão, claro – Langer? Uma distribuição infeliz de cópulas e modais – a literatura é, a literatura deve… fala sério, né? Um tom metafísico de fundo, essas coisas – mas tem uma evocação do caralho da descoberta, da aventura, do risco, isso é bacana, em linhas gerais acho que é isso mesmo. Tem um problema epistemológico que raramente é colocado aí que acho legal também: se você retira a parte desse texto que é celebração da Metafísica da Presença, ainda tem uma coisa, e isso me parece mais significativo, que tem a ver com descoberta sem método, com saber produzido a partir de não-saber em literatura, e você sabe que eu gosto dessas coisas. Não vi nada de nêmesis. Mané.

E ele respondeu É Olavo de Carvalho, Toni.

E é isso: você nunca pode saber de onde vai aparecer o cúmplice secreto, aquele que parece com você, aquele por quem você vai se arriscar, sem saber ao certo a razão do risco, duvidando toda hora do valor do risco – mas prosseguindo mesmo assim.

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Barco, Bowles

Noite passada, já deitado, já recolhido, ele se lembrou de um trecho de um conto de Bowles: um pássaro persegue um barco. Estamos longe da costa, muito longe: é extraordinário que esse pássaro esteja aqui e por isso a coberta está cheia de homens, marujos, prestando atenção, surpresos. O pássaro está exausto – não aguenta mais, e se esforça para alcançar o barco, e alcança. Mas, assim que se aproxima, se aproxima também dos homens na coberta, e hesita em pousar, recua, teme, e o barco avança, e o pássaro fica para trás. O pássaro está exausto – não aguenta mais, e se esforça para alcançar o barco, e alcança – vai por aí. Então, um garoto desce, entra no barco – e volta com um gato na mão.

Muito bem: essa história foi lida há exatos vinte anos. Nessa época, ele costumava passar a tarde lendo na biblioteca do curso de Inglês; foi lá que ele descobriu Bowles, lá que leu “A distant episode”, “A delicate prey”, e foi fisgado: nunca abandonou Bowles desde então, nem vice-versa. Ele gostaria muito de passar por aquele corredor e olhar pela porta de vidro hoje para aquele rapaz, 18 anos, lendo Paul Bowles. Mas isso não vai acontecer, e o mais perto que ele vai chegar disso é: aqui está esse homem, 38 anos, na hora de dormir, lembrando de um lance de uma história lida há vinte anos.

Com isso, claro, ele se levanta – vai às estantes, procura um livro de Bowles, e começa a folhear. Não: pega outro. Lá se vai meia hora, mais um pouco, uma hora foi fácil. Acha a história enfim, lê, vê que lembrou corretamente da cena, mas esqueceu de todo o resto – todo o resto da história. Ora, isso é lembrar?, pensa. Se o que eu lembrei tem mais esquecimento do que lembrança, do que é mesmo que eu lembrei? E com isso, com essa variação de um tema já explorado tantas vezes por ele, decide dormir e, já deitado, já recolhido, lembra de um lance de uma história que seu pai lhe contou.

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Ignorância, Chekhov

Amanhã quem sabe resolva o enigma dessa frase de Chekhov que me assombrou o dia inteiro hoje, que na verdade desde anteontem está em minha cabeça:  Nada mais em seu coração a não ser as lembranças de seus dias de escola.

O que é isso?, pensei. Não estou particularmente voltado nostalgicamente para meus dias de escola – de fato, eles ainda não acabaram, eles ainda são meus dias, vivo na escola, trabalho com isso. Além disso, não tenho certeza se a frase é de Chekhov mesmo: não sei se é alguma frase recolhida por um comentarista de Chekhov que li; não sei se é alguma frase que anotei em um caderno, pensando em usar em um texto sobre ensino, educação, memória, etc – não sei nada disso. Mas a frase está aí, do jeito que esteve comigo esses dias, o que implica que sei alguma coisa. Mas o que é que eu sei?

Eis então um problema: naquele período da vida em que tais coisas acontecem, você se deixa capturar por algo muito volátil, muito impreciso, mas que lhe parece certo, bonito, firme, bom. Então você vai adiante, e escolhe um trabalho que lhe aproxime disso, não é mesmo? Muito coerente e correto, do mesmo jeito que, se você gosta de madeira, vai ser carpinteiro: há uma passagem rápida aí que tem a graça estúpida da linha reta, e isso lhe captura também, parece fazer sentido, e você está no período da vida em que esse sintagmazinho, “fazer sentido”, lhe faz fazer um monte de coisas, pois você crê que é bom que você seja portador disso: é melhor fazer sentido que não fazer sentido, dessa axiologia você não abre mão, ela lhe sustenta, e lá vai você, e estuda anos, e se torna um professor.

Ora, há aí um equívoco que é próprio da matriz que origina toda a rota, todo o circuito: é da mesma natureza do erro de julgamento que lhe leva a supor mundos e fundos a respeito de uma mulher entrevista à noite, numa daquelas situações esquivas em que você se envolvia, e a conferir-lhe atributos auspiciosos e generosos que, depois você vai constatar, estão muito distantes do referente. Pois ao se tornar professor, e escolher trabalhar de um jeito que lhe permita estar perto do Saber e suas Instituições – livros; bibliotecas; leituras solitárias, leituras com outros, leituras para outros; o encontro com personagens admiráveis e exuberantes, constituídos de elementos magníficos e misteriosos; as conversações intempestivas mas inesquecíveis, capazes de mudar o roteiro que você está escrevendo para si mesmo, capazes de desarrumar seu pacote de categorias e critérios – o que lhe cabe será também trabalhar cotidianamente no cenário da Ignorância, da Burrice, e eventualmente da Estupidez. Isto também será seu palco, sua matéria-prima, sua justificativa.

E enquanto me pergunto isso, enquanto me perguntava, hoje de manhã, levando minha cachorra para passear, sobre o operariado brasileiro, as eleições que batem à porta, o que é “progresso social”, Chekhov continua desaparecendo de minha memória: aparecendo sem ser chamado, e contando para mim apenas metade de sua presença nessa lembrança sem endereço fixo, essa frase solta, presa comigo desde o sábado, essa foto formidável na qual Chekhov lê para seus atores: lê, para que essa leitura se torne uma coisa, essa foto, essa frase.